quarta-feira, 2 de maio de 2007

Brasil, um tiro pela culatra?

Dizem as agências:
O Brasil está fazendo um esforço diplomático juntamente com Índia, China e México para pressionar os países industrializados a reconhecer que historicamente eles poluíram mais do que as nações emergentes.
A articulação está em andamento nesta quarta-feira durante o terceiro dia da conferência que vai definir a versão final da terceira parte do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU).

O Brasil mete-se na luta inglória de procurar esconder o brilho do sol com uma peneira. E escolhe mal as companhias para este ajuste de contas com as economias desenvolvidas, diga-se os Estados Unidos e a União Europeia. No seu marxismo requentado os arquitectos da política externa do Brasil demonizam tudo o que soe remotamente aos interesses dos grandes, como se o Brasil não fosse um candidato a esse estatuto. Neste caso escolhe muito mal as companhias para se meter numa guerra perversa. Vejamos o caso da China. A grande nação asiática tem no seu espantoso ascenso económico, pulverizado a sua costa leste e do sul de indústrias poluentes que tornam os seus rios multicolores e os seus céus esbranquiçados. Constrói, com enormes resistências, as suas primeiras políticas anti-poluição mas toda a gente duvida que as consiga levar à prática dada a resistência dos líderes regionais a cortar o crescimento económico. A China tem 20 das 30 cidades mais poluídas do mundo segundo um relatório recente do Banco Mundial. Mais de 410 000 mortes têm origem na poluição, e as doenças infecto-contagiosas e do coração contam-se entre as doenças mais graves da China. A China deverá ultrapassar os Estados Unidos como a nação do mundo que mais produz gases de estufa [greenhouse gases] em 2009. Exactamente daqui a dois anos. Apenas.
O relatório da ONU sobre a situação climática no mundo saído no principio de Abril considera catastrófica a situação relativa ao aquecimento global e admoestou os paises poluidores a tomarem medidas mais efectivas para reduzir a ameaça. No jogo dos cinismos que a política externa é fértil, a China já declarou, pelo seu porta-voz do ministério dos negócios estrangeiros que nada faz ....se os Estados Unidos nada fizerem, isto é, enquanto não criarem incentivos anti-poluentes sobre as indústrias poluentes. Maiores incentivos significa menos postos de trabalho, logo mais pressão sobre os policy makers.
Não há neste jogo boas intenções, nem bons samaritanos. A China quer apenas bloquear a indústria automovel americana para se alcondorar ela própria a grande gigante da produção automovel. Como? Através das fábricas de multinacionais que alberga no seu território. Para vários observadores, a China está duas décadas atrás dos Estados Unidos e três décadas da Europa em termos de standards ambientais. A bem da memória, a China assinou o Acordo de Quioto e os Estados Unidos não. Sua culpa, no caso dos Estados Unidos. Mas apesar da sua assinatura à China não é exigido a redução das suas emissões de dióxido de carbono, embora seja o maior produtor de carvão do mundo [e um dos primeiros consumidores]. É um país em vias de desenvolvimento. Por isso consente-se-lhe tudo, o que se caustica os grandes. Pena que o Brasil não saiba escolher melhor os exemplos que toma para a suas derivas marxistas.

Um Banco com receitas para o Sul

Já alguém escreveu que a Economia “ é a ciência que se caracteriza por antecipar previsões feitas por especialistas que são sempre contrariadas por outros especialistas”.
O FMI segue à risca esta máxima (lembre-se que Portugal também tem sido alvo de sucessivos cenários dantescos traçados pelo FMI cuja vertente comum tem sido o erro sistemático, seguido de correcções que apenas confirmam as anteriormente avançadas pelos Governos e por outras instâncias internacionais), com desprezo total pelos problemas que não sejam de raiz económica e com a agravante de se comportar como uma espécie de agiota encartado.
Os latino-americanos, que durante décadas estiveram sob o jugo das medidas ultra-liberais do FMI, estão cansados das suas receitas draconianas e dos seus erros constantes de análise, da sua insensibilidade face à pobreza e do endeusamento da Economia na sua forma de actuação.
Com as contas saldadas e de cabeça erguida, Argentina, ( outro caso exemplar de sucesso que contrariou os presságios agoirentos do FMI) Bolívia, Venezuela e Equador decidiram dar um pontapé no traseiro dos magnatas do FMI e criar o Banco do Sul , que pretende promover os seus próprios fundos regionais e adoptar regras menos penosas , tornando-se uma alternativa mais justa para os países daquela região do globo.
O Brasil ainda não confirmou a sua adesão, mas a decisão que Lula vier a tomar sobre o assunto, será de extrema importância para o êxito da iniciativa.
Em minha opinião, sem o Brasil o Banco do Sul corre o risco de ser um fracasso e um revés para os mentores da iniciativa. Mas a inversa também é verdadeira. Poderá o país com maior desenvolvimento da América do Sul ignorar a iniciativa dos seus vizinhos?
Um Banco centrado na realidade latino-americana é crucial para o desenvolvimento dos países da Região e para o incremento do Mercosur, realidade económica e mercantil em que o Brasil é uma das potências mais interessadas. O problema, porém, é que os acordos comerciais recentemente celebrados pelo Brasil com os EUA podem obrigar Lula a rejeitar o convite dos seus vizinhos. Penso que se o fizer, Lula cometerá um erro de consequências imprevisíveis para o seu futuro e colocará o Brasil numa posição de fragilidade no diálogo ibero-americano, que não deixará de ter reflexos na sua economia. Irá correr esse risco?

O País dos Queixinhas

O meu bom amigo Baptista Bastos escreve no DN de hoje um artigo notável sobre a "Socratolândia"http://dn.sapo.pt/2007/05/02/opiniao/socialismo_delacao.html
É um grito de revolta contra o espírito pidesco que lentamente se vai (re)entranhando na sociedade portuguesa

Anotação pessoal: Quando um Governo promove os delatores a pessoas dignas, incentivando os funcionários públicos a denunciar os seus colegas ( mas não os dirigentes...) corruptos, os comerciantes ou os não fumadores a denunciar às autoridades os fumadores, está a dar mais um passo no caminho de retrocesso em relação à civilidade dos portugueses. Há coisas neste país que me começam a meter nojo!...

O "wishful thinking" de Teresa de Sousa

"O pior que podia acontecer à Europa e à Turquia seria que os responsáveis europeus utilizassem esta crise, não para emendar alguns dos seus clamorosos erros dos últimos anos, mas para encontrarem o argumento que lhes faltava para justificar a rejeição da Turquia".

Teresa de Sousa, PÚBLICO, 02-05-2007

A declaração da jornalista Teresa de Sousa é bem a expressão de um certo intelectualismo de jornalite que transforma as permissas de uma dada tese em verdade absoluta "por obra do Espírito Santo". Em nenhum lugar [e tempo] ficou provado que a adesão da Turquia é o conditio sine qua non da unidade europeia. Os americanos insistem nisso justapondo a NATO ao perímetro da União Europeia, mas é, apenas, a opinião deles. Não parece que devam ser os americanos a decidir o que deva [ou não] ser o espaço político [normal] da Europa. Quanto ao mais os europeus estão divididos quanto a querer este "cavalo de tróia" cá dentro. Onde fica a fronteira leste da Europa enquanto ideia, identidade, espaço sociológico? Alguém responde?

Os incidentes do 1 de Maio, em Macau, no lápis irónico do South China Morning Post


terça-feira, 1 de maio de 2007

Turquia

Abdullah Gül, único candidato presidencial às eleições na Turquia abespinhava-se esta semana com a anulação pelo Tribunal Constitucional da primeira volta das eleições que lhe deram a vitória. Segundo as regras constitucionais é o Parlamento a eleger o Presidente da República e a indigitação de Adullah Gul foi possível pela maioria que as forças fundamentalistas detêm no parlamento turco.
A decisão do Tribunal Constitucional turco deferiu a reclamação apresentada pelo Partido Republicano Popular [oposição] de que a votação de Abdullah Gul no parlamento turco se encontrava viciada por falta de quórum, já que os partidos da oposição sairam da sala aquando da votação.
A Turquia encontra-se dividida entre a tradição da laicidade e do republicanismo e o apelo dos islamitas que pretendem através de um populismo expansivo impulsionar transformações políticas na direcção da criação de um estado islâmico, com uma religião oficial, tribunais religiosos, a islamização das mulheres e o apartamento da cultura de tolerância europeia.
Esta viragem para o Islão da Turquia dá razão ao cepticismo de vários intelectuais e políticos europeus quanto às vantagens da adesão da Turquia à União Europeia. A Europa tem demasiados problemas com os seus 20 milhões de muçulmanos para comprar de barato mais este problema.
Fica uma pergunta final -há países que não se encontram preparados para a democracia e em que é preferível um estado liberal paternalista a uma democracia fundada no populismo das massas e na manipulação dos demagogos? Não será esse o sinal dado pelo impasse na Palestina?

Alvaro Vargas Llosa

O regresso do idiota - Alvaro Vargas Llosa na Foreign Policy. Um libelo desempoeirado sobre o novo caciquismo político na América Latina. O continente dos Peron, Getúlio Vargas, Alan Garcia, Fidel de Castro, Daniel Ortega, Evo Morales e essa figura lendária da clarividência e argúcia política que se chama Hugo Chávez.

domingo, 29 de abril de 2007

O país III - Um homem "disponível"

O "bom filho" à casa almeja tornar. Porque não lhe fazem a vontade? Sem Zezinha e sem Santana Lopes ao menos alegrava-nos o quotidiano. Bem precisamos.