terça-feira, 5 de junho de 2007

DMA 3- Intransigência dos ricos dá argumentos aos pobres

Depois de ter dado alguma mostra de abertura quanto à necessidade de combater as alterações climáticas, Bush parece ter recuado nas suas intenções e mantém-se intransigente na recusa de abrir as negociações para a renovação do calendário de Quioto, insistindo que o problema não é prioritário.
As alterações climáticas estarão no centro das atenções da reunião do G8 que amanhã se inicia em Rostock e Ângela Merkel bem se tem esforçado para conseguir um acordo conciliatório na fase de preparação da Cimeira. Não terá tarefa fácil, pois os Estados Unidos, ao contrário do que aconteceu em anteriores areópagos internacionais não estão isolados. Países como o Canadá, que foi um dos mais fortes impulsionadores de Quioto estão a ficar fartos da intransigência americana e não querem continuar a suportar, juntamente com a UE, os custos do combate às alterações climáticas.Sendo os países ricos os mais poluidores, a recusa em tomar medidas de preservação ambiental será um incentivo para que países em desenvolvimento como a China, a Índia ou a Rússia, se recusem a reduzir as emissões de GEE. Estaremos possivelmente num impasse que não augura nada de bom para as gerações vindouras.
Espero podeer voltar ao assunto...

Dia Mundial do Ambiente 2- China aberta ao diálogo

A China apresentou ontem, pela primeira vez na sua história, um Plano Nacional de Combate às Alterações Climáticas, comprometendo-se a aumentar a produção de energias renováveis e a sua eficiência energética.
É uma boa notícia, principalmente quando se sabe que em 2009 ultrapassará os Estados Unidos, tornando-se o país mais poluidor do mundo.
O reverso da medalha (a má notícia) é que a China , na véspera de se iniciar a reunião do G-8 que vai debater a questão das alterações climáticas, já fez saber que não vai abdicar do seu desenvolvimento económico e pretende continuar a ter as regalias concedidas aos países em desenvolvimento. Afinal em que ficamos?

Dia Mundial do Ambiente 1- Empresas portuguesas assobiam para o ar?

No dia em que se comemora o Dia Mundial do Ambiente, ficamos a saber que as empresas portuguesas ainda consideram o a protecção ambiental como um custo que é preciso evitar. Obviamente que a generalização feita pela Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE) é abusiva, pois há um número crescente de empresas a publicar Relatórios de Sustentabilidade e /ou de Responsabilidade Social , onde dão a conhecer aos “stakeholders” as suas práticas e projectos de sustentabilidade. O problema é que muitos desse relatórios não passam de “show-off” com que pretendem “mascarar” a sua indiferença. Claro que é preciso fazer muito mais e agir de modo a que não sejam apenas as grandes empresas a preocupar-se com o problema, mas temos que ser justos e reconhecer que os empresários portugueses estão hoje em dia muito mais conscientes da necessidade de agir respeitando o ambiente. Até porque já descobriram que a Responsabilidade Social das Empresas pode ser um bom negócio...

segunda-feira, 4 de junho de 2007

4 de Junho [1989]

Dezoito anos se passaram. Para quando o reacerto com a História e a verdade?

Cenas de Vida 9- O intrometido

A manhã corria célere, no encalço de pessoas apressadas para apanharem o transporte, que os conduza a mais um dia de trabalho rotineiro.
Enquanto tomava uma bica, encavalitado num balcão de vozes imprecisas acotovelando-se para chegar primeiro ao ouvido de um empregado atordoado, acabara de deixar escapar por entre os dedos mais um dos seus pedaços.
Ao pôr o pé na rua, ansioso por entrar na minha cela laboral, para dar continuidade à missão que me confiaram de contribuir para o aumento do PIB, quase sou atropelado por uma mulher magra, em passo estugado, cujo cabelo cobreado esvoaçando ao ritmo da leve brisa que soprava, me fez lembrar uma chama que pretende libertar-se do fósforo que a mantém refém.
Ainda na soleira da porta, vejo folhas de papel arrumadas em forma de revista, desprender-se do seu corpo.
Vá-se lá saber porquê, um jovem que passava, numa de cavalheiro, apanhou a revista do chão e, pressuroso, foi entregá-la à sua – ainda que provisória- proprietária, pensando certamente que estava a fazer uma boa acção.
“ Desculpe, a senhora deixou cair isto”- ouvi-o dizer- enquanto se aprestava para devolver o tesouro de letras encapadas, quiçá em troca de um sorriso esforçado de agradecimento.
A reacção da mulher ter-lhe-á gorado as expectativas...
“Eu? Não deixei, não. Não quero é isso para nada.”
“Ah bom! Então podia-o ter deitado num caixote do lixo ou deixado na tabacaria onde a comprou, porque isto é um suplemento do jornal que leva aí...”
“Mas quem é você para me estar a dar lições? A Câmara tem gente para fazer a limpeza, que eu saiba! Mas se está tão preocupado vá lá você por isso no lixo, que foi você quem apanhou isso do chão. Eu não quero isso para nada, já lhe disse...”
Apressada, lá continuou o seu caminho, vociferando entre dentes, mas de forma audível “estes gajos são uns metediços! Os pretextos que arranjam para meter conversa!... Os paizinhos não têm tempo para os educar e a gente que os ature. P´ra onde é que isto vai, meu Deus?”
Entrevi o jovem a ruborescer, e ouvi-o atirar um pedido de desculpas por ser civilizado. Voltou para trás e colocou diligentemente o destacável no recipiente apropriado.BINGO!

Fraternidades [s]

"Pode a sociedade civil distinguir-se pelas liberdades e pela igualdade. Mas falhou radicalmente na fraternidade" António Barreto, PÚBLICO, 3-6-2007

Dificilmente a sociedade civil teve esse propósito. Alguma vez. A menos que AB veja na "populace" ao assalto da Bastilha a expressão dessa sociedade civil. A fraternidade implica a majoração da igualdade inter frater, algo que os socialistas levaram ao ponto de "liquidar" a liberdade. Aquilo que a sociedade civil teve que fazer foi controlar e condimentar o poder expansivo da autoridade. Esse é sempre - em qualquer latitude, Ucrânia ontem, Venezuela hoje - o combate decisivo da liberdade. A fraternidade é para outro recolhimento e outra sabedoria. E supõe iniciar-se [ou sê-lo]. E partilhar-se valores comuns. Intimamente comuns.

domingo, 3 de junho de 2007

O inimigo da Europa?

É este provavelmente o nosso inimigo comum.

The new cold war: Russia's missiles to target Europe no Guardian.

France-Russie, l'heure du dialogue, par Dominique Fache no Le Monde

Guérir la relation franco-allemande, Alexandre Adler, no Le Figaro

UE: Sócrates elege reforma dos tratados como prioridade da presidência portuguesa

Sócrates é capaz do melhor e do pior. Claramente centra-se naquilo que é o "tendão de Aquiles" do processo de integração europeu. A reforma institucional e a constituição europeia. Muito se tem escrito [e dito] sobre a necessidade desta última. Uns consideram-na delírio; outros uma urgência.
A Europa não é uma realidade geopolítica. É, sobretudo, uma realidade cultural e depois geográfica. Claramente para sobreviver a Europa precisa de uma identidade colectiva feita de valores, princípios, uma ideia sobre o mundo, uma bandeira, um hino, um acervo de instituições. Só uma moeda não é bastante. Talvez de um inimigo comum. Os países também se entrozam dessa forma.
Portugal tem aqui uma oportunidade para brilhar. Sócrates é hábil e insinuante. Barroso parece querer dar-lhe visibilidade e panache. O centro da decisão será o par Merkel-Sarkozy. Mas estou desconfiado que para haver acordo sobre a Constituição os pequenos países têm que abrir mão dos Comissários Europeus. Não faz qualquer sentido uma Comissão com 27 membros efectivos, por exemplo. E chega de sonhos de parlamentarismo agudo. Concordo absolutamente com António Vitorino que o Parlamento Europeu tem já poderes que cheguem para balancear o poder da Comissão e do Conselho. Mais do que isso é introduzir um factor de imponderabilidade que na arrumação dos poderes constitucionais não faz qualquer sentido.