quarta-feira, 6 de junho de 2007

Flexi(n)segurança

A flexisegurança é um modelo de empregabilidade criado nos anos 90 na Dinamarca, mas só agora entrou no léxico luso, por força das novas medidas laborais que o Governo pretende aplicar.
Os basbaques portugueses – sempre prontos a aclamar tudo quanto vem do Norte da Europa ( quando é que alguém se lembrará de importar águas do Báltico para referescar as águas algarvias?)- receberam a ideia com entusiasmo. Vai daí, convidaram Paul Rasmussen- o ex-Primeiro Ministro dinamarquês autor da ideia- a vir a Portugal explicar-lhes como se aplica.
Devem ter gostado do que ouviram: “A flexisegurança é uma inevitabilidade da economia global e das novas tecnologias, e os jovens devem estar preparados para mudar de emprego 30 vezes ao longo da vida”.
A ideia de mobilidade agrada-me, porque a pratiquei ao longo da vida e defendo que a experiência acumulada em vários postos de trabalho – e até diferentes actividades- nos enriquece. No entanto, não tive durante 35 anos de carreira profissional mais do que uma dúzia de empregos e, mesmo assim, há quem me considere uma pessoa instável. Quando ouço falar em 30 empregos em 40 anos de actividade profissional parece-me um absurdo. Porém, talvez não seja assim tanto...
Vivi tempo suficiente na Suécia para poder compreender o alcance das palavras do actual presidente do Partido Socialista Europeu, mas duvido que aqueles que veneradamente o escutaram tenham percebido mais do que a parte que lhes interessa.
Nos países nórdicos, as pessoas mudam de emprego com frequência e, quando uma pessoa é despedida, demora cerca de um mês a arranjar emprego usufruindo, nesse período, de um subsídio de desemprego equivalente ao salário que auferia. Por outro lado, a mudança de casa ou de cidade também não é encarada com grandes preocupações, pois o mercado de arrendamento funciona de forma regular.
Em Portugal, porém, nada se passa assim. Metade dos desempregados demora mais de um ano a conseguir emprego e mais de um terço dos desempregados, com mais de 45 anos, não volta a encontrar um posto de trabalho. Quanto à mobilidade geográfica, também não é fácil por diversas razões, sendo a mais relevante o facto de as pessoas terem que se endividar para comprar casa e o mercado de arrendamento pura e simplesmente não funcionar apesar do elevado número de fogos devolutos. Ou seja, uma pessoa compra uma casa e fica amarrada para a vida. Nada disto é salutar, mas são as regras que temos e poucos se podem dar ao luxo de lhes escapar.
Aos empresários portugueses nada disto interessa. Pretendem trabalho qualificado que corresponda às suas necessidades, sem terem que aguentar com “pesos mortos” para vida inteira. Com toda a sinceridade, devo dizer que os compreendo. No entanto, gostaria de os ver reconhecer que para beneficiarem desse privilégio estão dispostos a pagar salários elevados, mas as declarações que ouvi de alguns no “Prós e Contras” e li de outros na “Visão”, não apontam nesse sentido.
Assim sendo, também não posso deixar de, com a mesma sinceridade, compreender a posição dos sindicatos. É preferível garantir a segurança de um posto de trabalho onde se vai apodrecendo à espera da reforma, do que arrastar-se pelos árduos caminhos do desemprego.
Ora Rasmussen chamou a atenção para esse aspecto e alertou que “o modelo só é viável com elevados salários e qualificações”. Esta parte, porém os empregadores não quiseram ouvir, porque pura e simplesmente não se aplica em Portugal. É apenas esse facto que torna absurda a aplicação da flexisegurança no nosso País.

Putin e o efeito Escorpião

A Europa depende em grande parte de fontes energéticas russas e terá muito a perder se não conseguir uma posição conciliadora e, sobretudo, se não souber calar os novos membros vindos do Leste. Putin já demonstrou ser capaz de, num acto de afirmação ou desespero, lançar mão dos trunfos que tem a seu favor. E se o fizer ( nem precisa de recorrer a ameaças bélicas, basta-lhe cortar a torneira do gás natural...) será o descalabro para uma Europa ainda a lamber as feridas da recente recessão económica.
Está na altura de a Europa se definir e perceber que a construção de uma paz duradoura possibilitada pela CEE, poderá estar ameaçada por divergências no interior da UE. A Europa não pode estar dependente dos arrufos de Putin, mas também não pode dar guarida aos maus humores de uns quantos ressabiados que acolheu precipitadamente.
A subserviência aos EUA de alguns dos novos Estados-membros deve-se, em grande parte, ao facto de esperarem que os americanos venham em sua defesa quando Putin se irritar. E isso quer dizer que não confiam na Europa e por isso não a respeitam.
A Europa devia ter sido mais cuidadosa antes de integrar no seu seio países que não têm qualquer sentimento europeu e apenas vêem na sua integração a vantagem de receber os Fundos Estruturais. Além disso alguns desses países destilam ódio aos russos e já por mais de uma vez demonstraram que se estão nas tintas para a posição da UE, quando em causa está o País que durante décadas os subjugou. Sentindo-se protegidos pelo “chapéu” americano tomam atitudes revanchistas próprias de adolescentes mal educados e põem em causa a própria democracia interna da UE ( os gémeos polacos que governam a Polónia são o exemplo mais acabado de anti-democracia vivida no seio da União, sem que ninguém ouse mandá-los calar).
Esperemos TODOS, que a Europa saiba lidar de forma hábil com esta crise de crescimento. Porque a Leste, um homem de gelo moldado na personalidade pelo KGB, estará disposto a imitar o Escorpião quando se sentir demasiado acossado.

Putin não tem razão, mas....

Já aqui escrevi sobre a ameaça de recrudescimento da Guerra Fria, a propósito do endurecimento da posição de Putin face aos Estados Unidos, que começou com a questão nuclear iraniana.
De forma nem sempre perceptível, o conflito tem-se vindo a agravar, constituindo uma ameaça para a Paz que, em minha opinião, pode ser mais perversa e real do que as ameaças terroristas da Al-Qaeda. E a razão é simples. Putin é cada vez mais contestado na Rússia e precisa de falar para o exterior de forma a que o seu discurso seja ouvido internamente numa espécie de ricochete mediático que os titulares do Poder, quando se sentem isolados, muito apreciam.Bush deu-lhe um bom pretexto ao pretender implantar na Europa o “escudo celestial” anti-mísseis. A Europa acolheu bem a ideia e Putin, acossado, sentiu necessidade de “falar grosso”. Aproveitou a oportunidade durante a visita de Sócrates e disse algumas verdades que a Europa não terá gostado de ouvir. E com razão, pois no que concerne a direitos humanos na Rússia estamos conversados. A História, seja no tempo dos czares, durante o perverso regime comunista ou na actualidade, está prenhe de exemplos pouco encomiásticos para a “Grande Nação Russa”.

Não há anjos amotinados?

"...O pior (ou, pelo menos, o mais desgostante) é que o zelo persecutório foi exercido, amiúde, por denodados ex-esquerdistas, recauchutados nos prestígios do "mercado"; por comunistas integrados no varejo dos desvios da pureza doutrinal; por pequenos fascistas que o eram sem disso quererem dar conta, embora o sendo..."
Quem escreve estas sábias palavras é o meu bom amigo Baptista Bastos na sua crónica de hoje no DN. Embora a crónica verse o jornalismo, todos sabemos que nesta matérias não há inocentes. Não é BB?

terça-feira, 5 de junho de 2007

Paulo Teixeira Pinto

[...] Se em algum momento considerasse que haveria alguma inibição ou limitação ao pleno exercício das minhas funções, de acordo com os critérios aos quais estou vinculado e às convicções por que me rejo, evidentemente que, nesse caso, não exerceria a função.[...]

Paulo Teixeira Pinto, presidente do BCP, numa excelente entrevista aqui no Diário Económico, hoje. Tenho acompanhado à distância a carreira de PTP quer na política quer na gestão empresarial. Considero-o um dos excelentes cérebros do país, um táctico soberano, um frio avaliador e calculoso estratega. Desde que foi adjunto de Durão Barroso na década de 80 [creio], PTP afirmou-se como um dos jovens promissores da direita conservadora. Não me identifico com a sua família confessional a que pertence mas respeito-a [a Opus Dei]. Considero que o país precisa de homens deste timbre que colocam exigência e sentido de responsabilidade naquilo que fazem. Ainda quando divergem [ou rompem] com o pai fundador da instituição que lideram em nome de um projecto ou de uma orientação. Auspicio-lhe grande voos e pena que se tenha desligado da política. O PSD precisa urgentemente de gente com esta tenacidade e timbre.

Programa da Cimeira do G8

A cimeira de chefes de estado e de governo dos países industrializados começa hoje com a chegada das delegações e uma recepção oficial às 7 da noite. Quinta-Feira, primeiro dia de reuniões, a primeira sessão de trabalho a ter lugar entre as 10:00 e as 12:15 am tratará de "Growth and Responsability in the Global Economy/Heiligendamm process". Depois da foto de família uma reunião do G8 com os jovens. A segunda sessão - a Working Lunchon - iniciar-se-á às 1:15 pm e tratará de "Current foreign policy offices". Entre as 2:30 e as 4:00 ocorrerão contactos bilaterais entre as delegações. Às 4 da tarde inicia-se a terceira sessão de trabalho dedicada ao tema "Climat change and energy efficency", tema que o nosso companheiro Carlos Oliveira acompanhará com olhos e ouvidos particularmente atentos. Finalmente a encerrar o programa do primeiro dia um Working dinner sob o tema "New Inmpetus for the Doha Development Round".
O G8 começou primeiro como G7 incluindo os governos do Canadá, da França, da Alemanha, da Itália, do Japão, da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. A Rússia juntar-se-ia ao grupo depois da dissolução da USSR. Este conjunto de países representa 65% da economia mundial http://www.undp.org e nas suas actividades inclui-se várias conferências e projectos de investigação culminando na Cimeira anual. A Comissão Europeia está também representada na Cimeira. Anualmente, cada membro do G8 toma rotativamente a presidência do grupo e define a agenda do ano. O modelo do G8 emergiu da crise do petróleo de 1973 e da recessão que se lhe seguiu constituindo um forum intergovernamental para articulação das políticas económicas dos países mais industrializados do mundo. Angela Merkel é a presidente este ano, que assistirá à última participação de Tony Blair em reuniões do grupo.

O mundo com os olhos postos na reunião do G8

Começa hoje a Cimeira de 2007 do G8, o club das nações industrializadas do mundo em Heiligendamm [Alemanha]. A Cimeira foi já marcada [nos seus preparativos] pela subida de tom dos Estados Unidos face à Rússia e vice-versa. No que nos toca a nós europeus a ameaça de Putin de dirigir os misseis intercontinentais para vários alvos europeus se a colocação dos mecanismos da defesa atlântica na Polónia e na República Checa se confirmar mostra a debilidade da ordem pós-Guerra Fria, depois dos cânticos à paz indefenida. Realpolitik meus amigos. Pura e dura.

DMA 4- Recordar Kundera

Eu sei que há por aí muito palerma ignorante que continua a pensar que este problema das alterações climáticas é uma questão de somenos importância. Claro que perderam um argumento de peso quando deixaram de poder invocar a protecção ambiental como uma bandeira da esquerda. Hoje, a direita civilizada está igualmente consciente da necessidade de tomar medidas em prol do ambiente, como salvaguarda do progresso.
No entanto, apesar dos argumentos que todos compreendem, continuam a existir os “idiotas cépticos”. Não tenho nada contra eles, excepto quando se tornam presidentes das grandes potências, como é o caso de Bush nos Estados Unidos.
Indiferentes, esgrimem as forças bélicas como forma de resistência à manutenção de uma economia assente no lucro e enriquecimento fáceis, alcançados à custa de práticas produtivas e comerciais agressivas e de economias selvagens. Como dizia Kundera, não há nada a fazer, porque “a estupidez comercial substituiu a estupidez ideológica”.