sexta-feira, 29 de junho de 2007

Geração iPhone

The New York Times lembra que "nenhum consumidor conseguiu até hoje tocar ou sequer ver um dos aparelhos, mas a expressão iPhone foi nos últimos seis meses tema de 11 mil artigos e 69 milhões de procuras no Google".
Vittorio Zambardino, no La Repubblica: “É espantoso, estão escritos km de textos sobre a máquina ainda sem ter sido vista.”


Estas citações, extraídas de um artigo de Sena Santos no DN de hoje -cuja leitura recomendo- são bem ilustrativas do que é capaz de produzir a sociedade da hiperescolha, legítima herdeira da sociedade de consumo.
Já não queremos ser. Queremos apenas ser os primeiros a ter, para vivermos na ilusão do parecer.O triunfo da matéria sobre as ideias e da publicidade sobre os conteúdos consolida-se à velocidade dos soundbites!

Os muros da "Liberdade"

A minha geração lutou pela queda do Muro de Berlim e teve a satisfação de ver o seu desejo realizado. Longe estaria de imaginar que anos depois da queda do mais ignominioso muro das civilizações modernas, florescesse a tendência para reeditar os “muros da vergonha”.
O Tribunal Internacional de Justiça declarou ilegal, em 2004, o muro da Cisjordânia, mas Israel continua a ignorar a sentença, com o apoio dos Estados Unidos que, por sua vez, iniciaram a construção de um muro de 1400 kms na fronteira com o México, a pretexto de suster a imigração, e Bush achou por bem mandar erguer um muro no Iraque, separando xiitas e sunitas.
Até onde irá esta fúria revivalista de construir muros em nome da liberdade, depois de tantos anos de luta para derrotar um outro que a ameaçava?
Serão os muros construídos pela sociedade global mais legítimos do que o muro de Berlim?

Nota de Leitura I [Democratic realism]

[...] Desvalorizar o apelo do islamismo radical é o modo de ver também dos seclaristas. O islamismo radical não é apenas fanático e tão inaplacável no seu antiamericanismo, antiocidentalismo e antimodernismo como qualquer coisa que já tenhamos visto. Aquele tem a vantagem distintiva de estar fundado numa religião venerável com mais de mil milhões de crentes, que fornece não apenas um caudal constante de recrutas - treinados e preparados em mesquitas e madrassas muito mais eficientes, autónomas e ubíquas que qualquer Juventude Hitleriana ou campo Komsol - mas é capaz de usar uma longa e profunda tradição de zelo, expectativa messiânica e cultura de martírio. Hitler e Estaline tiveram de os inventar do nada. A versão de Mussolini era um aparódia. O radicalismo islâmico age sob uma bandeira que tem muito mais profundidade histórica e goza de um apelo muito mais duradouro do que as religiões sucedâneas da suásticas e da foice e martelo, que se mostraram tão pobres e insubstanciais historicamente [...]

Charles Krauthammer, "In defense of democratic realism", The National Interest, 2004

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Saldanha Sanches

Saldanha Sanches chumbou, ontem, nas provas públicas para professor agregado da Faculdade de Direito de Lisboa – o último grau da carreira académica. Só os professores agregados podem ascender à cátedra, que é atribuída por vaga. Os nove professores do júri deram-lhe seis bolas pretas e três brancas. O júri que decidiu o ‘chumbo’ inédito - primeiro neste tipo de provas em Direito - foi constituído por dois catedráticos de outras faculdades (Braga de Macedo e Diogo Leite Campos) e sete internos: Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Miranda, Menezes Cordeiro, Fausto de Quadros, Teixeira de Sousa (director da faculdade), Paulo Otero e Paz Ferreira.

Há algo de irónico nesta história que escapará aos menos informados. Depois de ter sido um dos principais lideres da FEML [a organização juvenil do MRPP] durante a década de 70 e comandado os saneamentos da faculdade de direito nos meses seguintes ao 25 de Abril de 1974, entre os quais o odioso Soares Martinez tornou-se seu assistente na década de 80 e manobrou a sua reabilitação. Martinez nunca deixaria de ser o fascista que sempre foi mas o jogo da conveniência em que Saldanha mergulhou traz-lhe hoje os devidos engulhos. Sharp mouth, opinativo, sarcástico, rancoroso, Sanches terá pisado alguns calos, de forma ostensiva. As consequências aqui estão. O que é curioso é que quando o júri considera que o trabalho não está em condições sugere ao "probente"que o retire. Cheira-me que teimoso como é Sanches insistiu, insistiu e levou bola preta.
O chumbo será a galhofa nestes dias na velha faculdade da Alameda da Universidade. Que foi a minha.

Publicidade na mira da UE

Uma larvar febre proibicionista está a invadir a Europa. O mais preocupante é que o alvo persecutório de Bruxelas parecem ser os publicitários. Começou por se proibir a publicidade ao tabaco – que culminou numa perseguição aos fumadores- proibiram-se uma série de produtos tradicionais com intuitos meramente proteccionistas no seio do mercado interior, agora ameaça-se proibir a publicidade dirigida às crianças e ao “fast-food”.
Devo reconhecer que até estou, em princípio, de acordo com algumas proibições, mas não aquelas que têm sido alvo dos censores de Bruxelas.
Não sou consumidor de “fast food”, mas considero a proibição da sua publicidade uma rotunda estupidez. Em primeiro lugar, porque não está provado que o consumo moderado desse tipo de alimentos seja muito prejudicial à saúde. Alguns nutricionistas admitem mesmo que esses produtos fazem parte – ainda que ocasionalmente- da sua dieta alimentar. Em segundo lugar, porque não é proibindo a publicidade que se combate a obesidade que tanto preocupa- e bem- as autoridades de Bruxelas.
O que deveria preocupar as autoridades comunitárias e principalmente o Comissário Kyripianou era perceber por que razão os jovens europeus se sentem tão atraídos pela “fast food “ e outras modas “made in USA”. Já deveriam ter percebido, por exemplo, que a cultura americana, assente em princípios alimentares profundamente errados, é vendida a toda a hora na Europa através dos filmes e séries de origem americana que invadem as televisões e salas de cinema.
O cinema pode ser um meio de enorme eficiência para que os europeus - tão distraídos nas últimas décadas com as produções americanas- se identifiquem melhor com a sua História e os seus costumes e se revejam no espaço geográfico que ocupam. Porque não, então, apoiar a indústria cinematográfica de raízes europeias, em vez de a condenar ao desaparecimento?
Outra medida seria o incremento de acções de formação e informação junto do público em geral e dos jovens em particular, para evitar cenas como a que assisti há uns meses numa escola de Lisboa onde, numa conversa com crianças de 9/10 anos fiquei a perceber que muitas delas pensavam que os “hamburguers” nasciam nas árvores ( Não, não é anedota!!!).
De há uns anos a esta parte, a Europa anda um pouco divorciada do apoio à formação e informação dos seus cidadãos. Talvez porque pense que é mais fácil atacar a publicidade, do que cortar o mal pela raiz, esclarecendo os cidadãos acerca dos comportamentos mais correctos para uma vida saudável. Dir-me-ão que proliferam as campanhas informativas, mas eu contraponho com a sua inoperância. E a razão é simples: são mal direccionadas, mal conduzidas e, sobretudo, mal executadas.
Compreendo que seja mais fácil para Bruxelas proibir a publicidade a determinados produtos, do que pôr em causa a sobrevivência de figuras sagradas da indústria e do mercado. Compreendo que seja mais fácil sugerir a proibição de venda desses alimentos nas cantinas escolares ( embora quem queira continuar a consumi-los os encontre a 100 metros da escola) do que desenvolver campanhas que permitam aos jovens fazer escolhas conscientes em termos alimentares, não se deixando seduzir pelas promessas de alguma publicidade.
Compreendo tudo isto...mas não aceito! Porque não pactuo com a prática farisaica de dar com uma mão e apunhalar pelas costas com a outra.
A UE já devia ter percebido que se a publicidade ajuda a enraizar hábitos, não pode ser responsabilizada pelos males do mundo!

Hong Hong, ten years later

Faço, a propósito dos 10 anos da HKSAR, uma análise globalmente positiva da gestão chinesa da antiga colónia britânica aqui no Macau Daily Times, o novo e impressivo diário em língua inglesa de Macau.
Paul Harris e Chris Patten acompanham-me - no International Herald Tribune - em visões mais distanciadas e mais pessimistas. Aqui e aqui.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Buenos Aires não é um barómetro, mas pode ser um aviso...o

O candidato de direita, Maurizio Macri, ganhou com surpresa e esmagadora maioria ( cerca de 60%) as eleições em Buenos Aires.
Não é uma boa notícia para o presidente Gustavo Kirchener, a quatro meses das eleições presidenciais. Embora Buenos Aires seja um eterno bastião da direita argentina, o à vontade com que Macri venceu as eleições na capital azul-celeste serve de aviso a Kirchener que todos os analistas consideram como vencedor antecipado das eleições de Outubro. E diga-se, em abono da verdade, que a derrota do actual Presidente seria não só uma injustiça, tendo em consideração a forma como contribuiu para a recuperação do país durante os cinco anos de mandato, como um forte revés para o desenvolvimento da Argentina que apresenta sinais inequívocos de um crescimento consistente.
Uma amiga argentina dizia-me, esta manhã, que Kirchener poderá vir a pagar a factura da aproximação a Chavez, quando Bush visitou a América Latina. Na altura também aqui aventei essa hipótese, mas sinceramente não acredito que isso venha a acontecer. O actual presidente é da esquerda moderada, não se põe de cócoras diante de Bush, nem é apoiante das ideias de Chavez e tem uma ideia clara do papel a desempenhar pela Argentina no Mercosur e no contexto geral da América Latina.

Legislemos as mamas, então!

Os eurocratas que já nos retiraram do prato os “jaquinzinhos”, o queijo da serra artesanal e uma série de minudências gastronómicas que me alegravam os repastos, parecem querer tirar-nos outras alegrias. Vai daí, reúniram-se algures para discutirem a sua próxima incursão legislativa. Ao que presumo, a discussão deve ter sido acalorada, mas pouco produtiva. Incapazes de legislar sobre a licença de uso e porte de arma, sobre drogas, ou qualquer outra matéria de real interesse para os europeus, seguiram o conselho de um qualquer Comissário e fizeram verter a sua argúcia regulamentatória sobre os predicados femininos.
Legislemos as mamas! – acordaram em uníssono ( e presumo que por aclamação...) os eurocratas de Bruxelas.
Valha-nos que, POR AGORA(!) ainda não decidiram regulamentar o tamanho, mas apenas as regras dos implantes, que ficam proibidos a menores de 18 anos. No entanto, as jovens que se sintam descontentes com o tamanho das ditas, podem afogar as suas mágoas em noites de bebedeira, porque o consumo de álcool só é proibido antes dos 14 anos ( e mesmo assim, pelo que é possível ver em Portugal, qualquer criança de 10 anos pode apanhar boas bebedeiras em locais licenciados, desde que não o faça depois da meia –noite...)
O que vale aos homens é que, POR AGORA(!) estão em maioria nos centros decisórios da UE, pelo que não é de esperar que algum se lembre de regulamentar o tamanho dos pénis! Em causa está a democracia europeia, caramba!