quarta-feira, 18 de julho de 2007

Cenas de vida 14- O taxista, a velha e o polícia

Cenário:
Avenida da Igreja, fim de manhã solarenga, boa disposição pairando no ar.


Uma septuagenária atravessa a passadeira apoiada numa bengala. Lentamente, como impõe a sua idade e a dificuldade de locomoção.
Em velocidade acelerada, um táxi aproxima-se e trava a fundo, mesmo no limite da passadeira. Quando a senhora vai a passar à sua frente o motorista de táxi , num assomo de boa educação ,lança a cabeça de fora e grita:
“Oh velha! Atravessa mais devagar... Vê lá se queres uma corrida para o hospital!”
(seguiu-se um palavrão impublicável)
A senhora estacou. Soergueu-se com dificuldade, levantou a bengala e deixou-a cair sobre o capô, provocando um ligeiríssimo arranhão.
Valente, o motorista sai do carro com nítida intenção de tirar desforço. Diz que vai chamar a polícia. Três ou quatro transeuntes chamam-lhe a atenção para a grosseria e são brindados com um chorrilho de impropérios. Não reagem, porque percebem rapidamente que o motorista do táxi está embriagado (passam poucos minutos do meio dia, lembre-se!). Um homem dos seus trinta anos tenta apenas aconselhá-lo a voltar para o carro e seguir o seu caminho. Como os impropérios continuam, aponta para um polícia que, postado numa esquina a poucos metros, observa a cena, fazendo menção de o chamar. Num ápice a autoridade move-se, ( em sentido contrário ao do local do incidente) e desaparece por uma rua adjacente. A custo, o motorista é posto dentro da viatura e segue o seu caminho com um chiar de pneus. No local, a senhora contém a custo uma lágrima que a mão trémula (mais que habitualmente, por certo) disfarçadamente enxuga.
- "Sabe... vejo mal e se calhar o homem até tinha alguma razão. Mas eu não consigo andar mais depressa!"

terça-feira, 17 de julho de 2007

Rapidinhas 19- Ainda o Altis


Afinal, a encenação do Altis a que aqui fiz referência, ainda teve contornos mais caricatos! Segundo noticia o JN, as pessoas vindas de Cabeceiras de Basto nem sabiam ao que vinham e, alguma delas, nem sequer eram socialistas. Isto já nem é Estado Novo, é mesmo à moda da Roma Antiga! Quando é que nos mandam para as galés?

Rapidinhas 18- Objectores em part-time

A Ordem dos Médicos lançou o aviso: há médicos que se declaram objectores de consciência para praticar o aborto nos hospitais públicos, mas fazem-no em clínicas e hospitais privados. A Ordem acusa os médicos de grave “pecado” deontológico e pede ao Governo que elabore uma lista dos médicos objectores. O Governo assobia para o ar, certamente porque sabe que esta atitude aberrante de alguns médicos lhe permitirá poupar alguns euros com as despesas de saúde. E isso é que importa para o défice!

Um mau exemplo de ser português

José Couceiro, treinador das selecções nacionais de sub-21 e sub-20 ,conduziu Portugal a dois vergonhosos desastres no Europeu e Mundial das respectivas categorias.
Com duas equipas recheadas de talentos, conseguiu exibições vergonhosas e condutas disciplinares condenáveis.
O mais normal, depois destes tristes episódios, era Couceiro pôr o lugar à disposição. Mas Couceiro- que ninguém percebe como chegou a treinador/seleccionador- mantém-se agarrado ao lugar como uma lapa e não vê razões para se demitir. Para ele, ter sido eliminado numa primeira fase do Europeu de sub-21 com apenas uma vitória sobre Israel e ter sido derrotado pela Gâmbia e pelo Chile no Mundial de sub-20, depois de uma repescagem insólita, foi “cumprir os objectivos traçados”.
Não se trata apenas de falta de ambição. Trata-se também de incompetência. Couceiro atirou com o Belenenses para a Liga de Honra ( permaneceu na I Liga graças aos episódios rocambolescos que todos conhecem) e com a mesma equipa, na época seguinte, Jorge Jesus levou o Belenenses ao 4º lugar.
Couceiro ainda não percebeu as suas limitações. Por isso reagiu como muitos outros portugueses: sou competente, mas tive azar! Demitir-se está fora de questão, porque o que pretende é ser despedido e receber a indemnização a que terá direito.
Este exemplo do mundo do futebol aplica-se a quase todos os sectores de actividade em Portugal. Por isso o País continua a viver nesta “apagada e vil tristeza” de pessoas que recusam assumir as suas responsabilidades e atribuem ao azar os seus insucessos.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Cenas de vida 13- A sabedoria da terceira idade

Um grupo de jovens rumava ao Altis na noite eleitoral, ainda antes de serem conhecidos os resultados. Confiança estampada no rosto, bandeira do PS desfraldada ao vento, um deles grita bem alto, entrecortando o silêncio sombrio do fim de tarde: “Viva o PÊ ESSE!”.
-“Eh pá está calado. E se o Costa não ganha?”
-“Estávamos f.... Amanhã nem saía à rua c...”
- “Nunca gosto de deitar foguetes antes do tempo... E com a abstenção que vai haver, não sei não. Viste como as mesas de voto estavam às moscas?”
-“Ora, ora, isto está no papo, não vai haver surpresas. Se perdessemos era uma catástrofe”.
-“ Só nos faltava que ganhasse o Carmona ou o Negrão! Ainda era pior do que o Sarkozy ter ganho em França.”
- “Eh pá, olha que afinal o Sarkozy até está a ser uma surpresa. Até tem feito umas coisas bacanas pá!”
- “Cuidado com as surpresas...”
- “Porque é que dizes isso?”
- “ O Sócrates também está a ser uma surpresa...”.
- “ Mas com o Costa na Câmara vai ser diferente. Ele é um gajo fixe!”
- “É fixe é! Costa é fixe o Sócrates que se lixe!...”
- “Está calado, pá! PÊ ESSE! PÊ ESSE! PÊ ESSE!”.
E com o seu grito contagiando os restantes, lá seguiu o pequeno grupo entoando em coro o mesmo refrão rumo a uma noite de celebrações.
Um idoso que passava parou quando os jovens passaram por ele e perguntou:
- “O que é que estão a celebrar?”

Rapidinhas 17- A encenação do Altis

Os socialistas estavam avisados para a forte abstenção e sabiam que os lisboetas, mesmo dando a vitória a António Costa, não tinham motivos para sair à rua a festejar. Previdentes e experimentados nestas andanças, meteram socialistas do Norte em autocarros e fizeram-nos rumar a Lisboa para vitoriar o vencedor – e por tabela o líder socialista, carente de um pequeno banho de multidão.
Uma encenação a fazer lembrar as homenagens a Salazar durante o Estado Novo. Pobre do líder que se sente aconchegado com o calor de aplausos organizados pelos seus acólitos e não sabe interpretar o seu significado!Espero que Sócrates tenha tirado as devidas ilações...

Rapidinhas 16- A euforia de Sócrates

O líder do PS estava eufórico com a vitória de António Costa. Pudera! Depois das derrotas nas autárquicas e nas presidenciais e das sucessivas vaias sempre que aparece em público, precisava deste balão de oxigénio. Dá-lhe tempo para recuperar forças e respirar fundo. Dar-lhe-á tempo para corrigir a sua política? Tenho dúvidas, porque ele acredita convictamente que está a seguir o caminho correcto.

Eleições em Lisboa- os vencedores

Helena Roseta- Criar um movimento menos de dois meses antes das eleições e conseguir uma votação superior a 10%, à frente de PC, BE e CDS/PP não pode deixar de ser visto como uma vitória. Vai fazer bem à Câmara e, nestes dois anos, pode capitalizar votos que lhe rendam maior pecúlio em 2009.
Carmona Rodrigues- Foi, obviamente, um dos vencedores, mas ao contrário de Helena Roseta, o mais provável é que a sua votação se comece a esvaziar desde já. Se voltar a candidatar-se será integrado nas listas do PS...
António Costa- Vencedor, mas com poucas razões para grandes regozijos. É certo que conseguiu uma vitória clara, ganhou em todas as freguesias ( feito inédito) e conseguiu para o PS uma vitória que o partido não obtinha, sozinho, desde Aquilino Ribeiro Machado em 1976, mas a vitória ficou aquém dos 30% - como aqui eu previra - e não atingiu os 7 vereadores, considerados como patamar mínimo do sucesso. Tem agora a grande vantagem de não ter de se aliar a ninguém, o que com a sua habilidade política, lhe irá permitir certamente reforçar a sua maioria em 2009- se até lá o Governo não lhe destruir a imagem.
José Sá Fernandes- É certo que perdeu votos em relação a 2005, mas a sua eleição foi a demonstração de que a sua combatividade e luta pela transparência são apreciadas por muitos lisboetas, cansados de ver a cidade esboroar-se em tortuosos torvelinhos de interesses.