quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Lisboa: amanhã, o Paraíso

Carta aberta ao Dr. António Costa

Soube pelos jornais que V.Exª toma hoje posse como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Fiquei igualmente a conhecer algumas das suas prioridades para os dois primeiros meses de mandato: limpar as ruas varrendo os dejectos caninos, arrancar os cartazes de feira que conspurcam os edifícios, limpar fachadas, eliminar os “graffitti” de mau gosto, limpar os jardins e espaços verdes e ,a partir de 12 de Setembro, acabar com os estacionamentos selvagens (nomeadamente em segunda fila). Numa palavra, o que V.Exª promete aos lisboetas é o Paraíso!
Temo, caro Dr. António Costa, que quando amanhã começar a tentar pôr em prática as suas boas intenções, se aperceba finalmente que a Câmara que vai dirigir nos próximos dois anos não é a de Helsínquia, mas sim a de Lisboa. Sinto-me, por isso, na obrigação de o advertir que em Lisboa não vivem finlandeses educados, mas sim um subproduto da população portuguesa a que vulgarmente se chama – erradamente- lisboetas. A verdade, porém, é que a maioria dos lisboetas já não vive em Lisboa e, os que ainda cá vivem , estão acantonados em condomínios privados ou no bairro da Lapa. Sejamos por isso, claros: a população da autarquia que V. Exª estará a partir de hoje obrigado a gerir é hoje em dia constituída, maioritariamente, por uma mescla de saloios que há 30 anos vinha de carroça para Lisboa vender alfaces, com uma tribo de tiranetes que exploravam pretos em África e lhes “papavam” as filhas virgens, uns expatriados do interior do País que se acantonaram em Lisboa sempre com saudades da “terrinha” e da sua “horta” e uns quantos imigrantes de diversas proveniências. Ora esta população que hoje em dia habita Lisboa tem algumas características que convém não menosprezar e que me permito relembrar-lhe:

1- São ingratos. Apesar de o 25 de Abril- qual fada madrinha da Gata Borralheira- lhes ter permitido substituir a carroça por potentes máquinas; fornecido água potável canalizada e substituído o petromax por electricidade; facultado o acesso a uma parafernália de bens de consumo que a maioria nunca imaginou possuir; possibilitado a escolha do presidente de Câmara e conferido um vasto leque de mordomias a que não estavam habituados, os eufemisticamente chamados lisboetas são uns ingratos. Detestam políticos – como se não fosse graças a eles que conseguiram melhorar as suas condições de vida- e por isso os tratam como “escumalha”.
2- São ignaros- Esta mescla a que daqui para a frente apelidarei, generosamente, de população de Lisboa, apesar de ter sido polvilhada de Aramis, é pouco esclarecida. Pensou que não valia a pena votar no passado dia 15 de Julho, já que sendo o seu objectivo primeiro dizer mal de quem fosse eleito, não era necessário tanto incómodo. Além disso, a população de Lisboa desconhece não só a história da cidade em que habita, mas também o significados das pedras vivas que diariamente se atravessam no seu caminho e para as quais olham com profunda indiferença. Por isso lá afixam cartazes e espicham “graffittis” de mau gosto. É tão certo como a chuva em Dezembro, que por cada 10 cartazes que mandar retirar, no dia seguinte se erguerão 50 noutros locais da cidade.
3- São carentes- Se V. Exª pensa que vai acabar com os cócós de cão nas ruas de Lisboa, desiluda-se! Talvez não se tenha apercebido disso, mas a população de Lisboa é muito carente...Só assim se explica que hoje em dia nenhum habitante de Lisboa que se preze, dispense a companhia de um animal de estimação. Seja num T1 de 40 metros quadrados, seja numa “penthouse” de 200, há sempre lugar para um animal, seja ele um minúsculo “lulu” ou um mastodôntico São Bernardo. Em qualquer urbanização é possível ver todas as noites, nas áreas envolventes dos prédios, pessoas passeando os cãezinhos de estimação na hora de satisfazerem as suas necessidades. É um momento sublime e de grande significado sociológico. Como deve estar recordado, Salazar saía duas noites por semana, discretamente, para ver as montras e se inteirar dos preços dos produtos. No dia seguinte, reunia os seus Ministros, comunicava-lhes o que tinha visto, pedia-lhes as suas opiniões e depois decidia. Proponho a V. Exª que faça o mesmo, mas em vez de ir ver montras, observe os comportamentos dos cidadãos que passeiam os seus cãezinhos à noite. Verificará que a maioria deixa que os animais defequem à sua vontade, olham para as dimensões do dejecto e avaliam se o animal está totalmente “aliviado”. Depois seguem o seu caminho. Há alguns raros espécimens que se dão ao trabalho de pegar nos dejectos com um saquinho de plástico. Dizem-me que esses são os lisboetas que ainda vivem na capital nas mesmas condições dos habitantes de Lisboa.

4- São mal educados- A forma como tratam de suprir as carências afectivas, sem depois cuidarem devidamente dos dejecto do seu afecto, demonstra a sua falta de educação. Também cospem para o chão e estão sempre de dedo em riste fazendo gestos obscenos, mas a sua latente má educação é denunciada nos transportes públicos e quando conduzem. O seu lema é: tenho “pisca pisca, logo existo”. Por isso estacionam em segunda fila, em curvas , passadeiras, lugares para deficientes, em cima dos passeios, em paragens de autocarros e os outros que se danem. Se V.Exª conseguir acabar com isso não num mês, mas em dois anos, considerá-lo-ei um herói e serei o primeiro a subscrever a sua candidatura em 2009.

5- Julgam ser o centro do mundo- Um habitante de Lisboa julga sempre ser o centro do Universo. À sua volta tudo está mal, mas cada um sabe muito bem como pôr as coisas na ordem, porque ele é o exemplo acabado da perfeição. Por isso, encontra sempre justificação para não apanhar os dejectos do cão, estacionar o carro em transgressão, ultrapassar o sinal vermelho, abster-se no dia das eleições, etc. Os outros, que fazem o mesmo, é que têm falta de civismo...
6- São masoquistas- Caro Dr. António Costa, não desanime! A revelação que lhe faço antes de terminar esta carta ajudá-lo-á a resolver os problemas e a cumprir as suas promessas: os habitantes de Lisboa são masoquistas! Cheguei a esta conclusão ao ler os classificados do DN e do Correio da Manhã e constatar o elevado número de “dominadoras” que oferecem os seus préstimos... Ora um homem que gosta de ser dominado e humilhado por uma mulher entre quatro paredes deseja, no seu íntimo, ser humilhado e dominado por um poder superior. Acorrentado e chibatado, o habitante de Lisboa torna-se submisso, obediente e dócil. O que V.Exª terá pois que aprender é a usar as algemas e manejar a chibata. Sem usar a arrogância do sr. engenheiro, mas com a candura de uma mulher como Helena Roseta. Alie-se a ela e entregue-lhe a missão de tornar os saloios de Lisboa em exemplos de civilidade e conseguirá cumprir a sua promessa. E ainda lhe sobrará tempo para pegar nos dossiês e tentar pôr ordem no caos em que o Prof Carmona Rodrigues e a sua equipa deixaram a capital portuguesa.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Faltava-me a Mónica


Inspirem-se


Viagem ao mundo do Tango

Continuando com o registo estival, aconselho o último livro de Elsa Osório: “TANGO
Ao contrário do que o título possa induzir, não se trata de um ensaio sobre o Tango, mas sim de um romance em que Elsa Osório nos conduz, através da história do tango e da sua entrada na Europa, às sociedades parisiense e porteña ( Buenos Aires), desde finais do século XIX até à actualidade.
Histórico, comovente, é um livro imprescindível para quem conhece a Argentina e é apreciador de tango ( os locais onde a trama decorre são todos reais...), mas também de inegável interesse para quem gosta de histórias bem urdidas, onde o poder dos sentidos se alia com a vivência histórica.
Um aliciante extra para os amantes do tango: pelo menos na edição portuguesa ( ASA), o livro vem acompanhado de um disco com alguns registos interessantes.

Crónicas de viagem

Não estou em férias, mas os últimos dias de calor, as noites à beira mar, a cidade a esvaziar-se e a aparente acalmia na cena política, estão-me a imbuir desse espírito. ( Não é por acaso que nunca tiro férias no Verão...) . Para completar o quadro, nada melhor que recorrer à literatura de viagens e mergulhar na escrita descomprometida de Gonçalo Cadilhe.
Jornalista nascido nas páginas da saudosa "Grande Reportagem" de Miguel Sousa Tavares ( também ele um emérito cronista de viagens), Gonçalo Cadilhe relata em "A Lua Pode Esperar" alguns episódios das suas viagens "pelos quatro cantos da Terra". Viajamos com o autor da Patagónia à Nova Zelândia, das Caraíbas à Indonésia, dos Andes a Zanzibar, vivendo episódios grotescos, apreciando as paisagens e partilhando os seus sentimentos. Já visitei a maioria dos locais onde Gonçalo Cadilhe nos leva neste seu livro, mas através dos seus relatos, não deixei de conhecer um pouco mais. Afinal, a literatura de viagens é isso mesmo: enriquecer, partilhando...

A vez de Antonioni

Depois de Bergmann, foi a vez de Michelangelo Antonioni deixar o mundo dos vivos. Não sendo um dos meus realizadores preferidos, Antonioni "deixou-me" um legado inesquecível: "Blow-up"! Um filme que marcou uma época, com uma actriz (Vanessa Redgrave) que foi uma das grandes "divas" do cinema. Foi também com Antonioni que conheci um dos "sex symbols" dos anos 60: Monica Vitti. Os seus desempenhos na trilogia que me deu a conhecer Antonioni ( A Aventura, A Noite e O Eclipse) são notáveis e demonstram à saciedade que a beleza física é compatível com talento. Apesar de hoje em dia, qualquer "carinha laroca" descoberta num reality show televisivo ou nas passerelles da moda , se poder tornar actriz, é difícil encontrar gente que compatibilize os dois predicados. Há excepções, eu sei, mas não passam mesmo disso( excepções).

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Sobre a Declaração de Princípios do Além do Bojador

Criámos um contador na faixa direita do blog porque o existente, por qualquer razão técnica, desapareceu. Conforme declaração de princípios aquando do início da viajem não é propósito da tripulação lançar-se na compita das visitas. Isso supõe um outro tipo de compromissos que não estamos dispostos a fazer. E uma concentração em fait-divers nacionais que não consideramos particularmente interessantes. Há blogs que correspondem a essa necessidade. Se for essa a sua procura, boa viagem! O contador serve exclusivamente para termos uma ideia da origem dos visitantes. Nos primeiros sete meses de vida mais de 70% dos nossos visitantes foram oriundos das Américas [Estados Unidos, Brasil, Canadá e Argentina] e a seguir de Portugal e da Ásia.
O Além do Bojador permanecerá cosmopolita, intercontinental, virado para fora e menos para dentro. Com um pouco de tudo, comentário político [internacional e nacional], crónica de viagens, recensão de leituras e crítica musical. Para bem da grei!

Leituras

Algumas sugestões para leituras num Verão particularmente tórrido. Do catálogo nacional.

  1. Hannibal: a origem do mal - Thomas Harris [gostei do filme que considero, aliás, um dos melhores da trilogia Hannibal. Creio que a intriga do romance o ultrapassará];
  2. A minha vida como imperador - Su Tong [um escritor imaginativo e de grande talento diz o New York Times];
  3. Uma história de amor e ódio - Amos Oz [um dos grandes escritores israelitas da actualidade, recebeu em 2005 o Prémio Goethe e em 2007, o Prémio Principe das Astúrias]
  4. O sonhador - Ian McEwan [McEwan dispensa apresentações, é um dos grandes romancistas contemporâneos, presença normal na longlist do Man Booker Prize Awards [60 vezes nomeado], lista que me inspira nas compras sazonais]

Sem menção específica mas sugerindo uma pesquiza nos catálogos nacionais alguns dos autores que costumo ler em língua inglesa: Kazuo Ishiguro, David Mitchell, Sarah Waters, Colm Tóibin, Kiran Desai, J.M.Coetzee, Arundhati Roy, John Banville, Zadie Smith, Margaret Atwood. [Banville e Tóibin já têm tradução nacional, os demais desconfio que não].