quinta-feira, 16 de agosto de 2007

ELVIS- "A tribute to the King"

Assinalam-se hoje os 30 anos da morte de Elvis Presley. Ídolo de uma geração, a sua vida gerou tanta polémica quanto a sua morte - que muitos ainda hoje se recusam a admitir. Nunca fui um fã incondicional de Elvis, embora lhe reconheça um indesmentível talento. Elvis foi - e é ainda hoje, graças a um marketing engenhoso-um fenómeno de vendas.
Tem 3 estrelas no "Hall of Fame" e uma legião de fãs que o idolatram e alimentam o mito.
Uma autêntica máquina de fazer dinheiro.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

60 anos da fundação do Paquistão

Há 60 anos o Paquistão vive como nação independente. Fruto de um penoso processo histórico o país resultou da concessão de independência à India, a pérola da Commonwealth, e da partição da Índia entre a maioria hindu e a minoria muculmana. Tratou-se de uma decisão dolorosa ainda hoje questionável mas permitiu minimizar a violência étnica e religiosa que seguiu à concessão de independência à India e a guerra civil que se lhe seguiu. Mas ela traduziu-se na divisão de famílias a meio e no isolamento e perseguição dos indianos de obediência muculmana que não conseguiram seguir o movimento de deslocação para o noroeste.
Arregimentados para diferentes blocos geoestratégicos durante a guerra-fria, India e Paquistão procuram hoje construir um diálogo que os ponha a coberta das sementes de guerra e ódio que uma vez os lançou na guerra. Um diálogo minado por desconfiança mútua, ódio racial e étnico, por uma enorme pobreza na periferia dos centros urbanos e pela barbaridade do terrorismo.
Conheço bem a India, um país extraordinário, mas nunca visitei o Paquistão. Estive em Jaisalmer a pouco menos de 100 km de Lahore. Mas gostaria de lá ir.
Sobre a história de 60 anos como nação, Moshin Hamid, no New York Times, aqui.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Uma tentativa de assassinato político

No Tribuna de Macau
[...] O Governo assegura que Edmund Ho não detém nenhuma participação indirecta na STDM e na Shun Tak, ao contrário do que noticiou ontem o “South China Morning Post”. Para isso, o governante e os seus advogados estão a tentar localizar a documentação que oficializa uma transferência de acções da Many Town para o irmão
A notícia “caiu” de forma surpreendente: a edição de ontem do jornal de Hong Kong “South China Morning Post” (SCMP) publicava uma história sobre uma alegada participação empresarial indirecta do Chefe do Executivo, Edmund Ho, na Sociedade de Diversões e Turismo de Macau e na Shun Tak, ambas controladas por Stanley Ho. Tal constituiria um claro conflito de interesses. Com a poeira a assentar, começa a ser possível traçar algumas explicações a um cenário que não está completamente esclarecido. Lateralmente, volta a estar sob fogo o regime de declaração de rendimentos e interesses patrimoniais dos titulares de cargos públicos da RAEM
[...]
Escrevo amanhã no JTM sobre as razões desta tentativa de assassinato político que em Macau não é original. Há 20 anos Carlos Melancia, hoje Ho Hau Wa. Os propósitos os mesmos: chacana política e jogo de interesses. A magnitude dos interesses que se jogam com o jogo e a liderança política do território são imensos. E as leituras várias.

A propósito da polémica

Não alimento mais a polémica com o meu amigo Carlos Oliveira a propósito de Zita Seabra cujos termos considero esgotados e os argumentos esclarecidos. Sabendo-o um homem de esquerda [coisa que não sou] estranho a sua extraordinária capacidade de tolerância e compreensão relativamente aos apetites totalitários que vêm desse lado do espectro político. Porque é um homem de valores e porque partilho com ele alguns dos que considero os princípios fundamentais da sociedade livre, plural e democrática em que vivemos. Apesar de todas as dificuldades e erros. Nunca me esqueço da Fonte Luminosa e do contributo do PS para estancar essa hemorragia da conversão democrática. Não confio nos comunistas. Aliás por viver aqui numa situação muito especial dentro de um estado comunista ainda menos ilusões tenho. Nem confio em dogmas.

Turquia, um pouco mais do mesmo?

Abdullah Gul, membro do partido islâmico turco [AKP] e actual ministro dos negócios estrangeiros da Turquia força a sua candidatura à presidência da república cuja primeira volta terá lugar dentro de semanas. Em Abril passado Gul fracassou no seu intento de se fazer eleger presidente, já que maioria no parlamento bloqueou a sua eleição acusando-o de querer islamizar a sociedade laica turca. Milhões de turcos desceram à rua para afirmar a sua lealdade ao estado laico. Gul faz a mulher usar véu islâmico em cerimónias oficiais, o que é considerado uma afronta aos valores de tolerância religiosa do estado. Os acontecimentos levaram à publicação de um comunicado pelo exército anunciando que interviria militarmente em caso do governo não respeitar o princípio da laicidade.

É curioso como associamos, commumente, a intervenção do exército na vida pública a putchs militares contra as liberdades e na Turquia [como na Tailândia, aliás] esta tem um sentido inverso de reposição da normalidade democrática.

Rapidinhas 28- Importa-se de repetir?




Não me considero preconceituoso nem antiquado. Um pouco careta, de quando em vez? Concedo...
Talvez por isso tenha ficado enxofrado quando hoje, ao passar numa loja de lingerie de um centro comercial em Lisboa deparei com este cartaz na montra:“Seja moderna, seja atrevida, torne o seu bumbum mais apetitoso”. Como diria o outro: “E pode?”

Zita Seabra- ponto final...parágrafo?

Pese embora considerar que comparar Mónica com Zita me faz sempre recordar a regra elementar que o meu professor primário me ensinou (“ nunca se pode multiplicar laranjas por bananas”), achei interessante o texto que o Arnaldo Gonçalves introduziu aqui em baixo- e gostei das suas notas pessoais sobre o assunto.
Eu não faço comparações, por uma simples razão: conheci Zita em criança ( chamemo-nos assim) e só conheci (muito vagamente...) Mónica, no início dos anos 80, quando ambos tínhamos atingido a idade madura.
Obviamente que reconheço a coragem de Zita – e longe de mim criticar as pessoas que ao longo da vida vão mudando a sua postura ideológica. Mas também reconheço a coragem de Mónica ...talvez mais prazeirosa e irreverente , mas que á época também tinha os seus custos!

Só que no caso de Zita, encontro apenas um senão. Quando uma pessoa dedicou os melhores anos da sua vida à defesa de determinados princípios e causas, não é normal que anos mais tarde, quando as cãs lhe conferem maior respeitabilidade e reverência, venha “renegar” o passado através de um livro que mais parece um acto de contricção. Quando isso acontece é porque há alguma motivação. Seja económica ou de busca de uma notoriedade perdida.
Sem conseguir resistir à tentação de entrar em modelos comparativos ( não entre personagens, mas entre produtos enquanto reveladores das personalidades de quem os utiliza ou produz) o livro de Zita Seabra faz-me lembrar o de Carolina Salagado. Parece-me mais um “ajuste de contas”, do que uma reflexão séria e "desinteressada"sobre o PCP.
Tanto quanto sei, Zita Seabra não foi obrigada a entrar para o Partido Comunista ( houve mesmo alguma resistência na sua admissão) , nem impedida de sair quando entendesse fazê-lo. Talvez o tenha feito demasiado tarde e esteja arrependida por isso. Talvez só agora se tenha apercebido da dimensão da sua escolha de adolescente e dos custos que uma permanência tão prolongada no Partido Comunista lhe acarretaram. Confere-lhe essa mágoa o direito ( ou será antes um ónus?) de vir publicamente “lavar roupa suja”?
As pessoas enobrecem-se mais pelo silêncio, do que pela palavra. Pela simples razão de que o silêncio todos o sabemos usar, mas as palavras são como armas... devem ser coadas pela razão - e não jorrar em vómitos de emoções - , para evitar que se tornem armas de arremesso com efeito “boomerang”.
São estes pequenos pormenores que distinguem, por exemplo, Zita do meu bom amigo João Amaral que, embora bastante descontente com o PCP, teve a “CORAGEM” de manter o silêncio até à morte...
Os cânones que regeram a sua vida fizeram dele uma pessoa admirada em todos os quadrantes políticos, incluindo figuras destacadas do CDS.
Por isso me perdoarás, meu caro Arnaldo Gonçalves, mas não alinho contigo quando falas na “conversão” de Zita ( e dos comunistas em geral). As ideologias aceitam-se e renegam-se, não são ( felizmente...) conversíveis. Mantenho esta posição, apesar de reconhecer que a única ideologia que hoje parece existir no mundo ocidental é a da adoração aos princípios do “sacrossanto” mercado.
Rezam outros cânones, que Nossa Senhora terá anunciado aos “pastorinhos” a conversão da Rússia. Terá Zita querido precisamente simbolizar a revelação de Fátima, ao pretender ser baptizada? Talvez... mas cá para mim continuo a pensar que o estatuto que melhor se adequa a Zita Seabra é o de “arrependida”. Com a carga jurídica que a palavra comporta, como é óbvio, mas não só....

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Porque Zita não é Mónica

Lido noutro lado
[...] Além do mais, ser comunista requeria coragem. Por isso é que, nesses tempos, Freitas e Júdice não eram sequer socialistas. É dessa coragem que Zita Seabra nos dá conta. Esse é um dos pontos de interesse do seu livro. A história de uma adolescente da alta burguesia que adere ao Partido e vive uma clandestinidade perigosa e é uma história de idealismo e coragem. Zita foi corajosa. Ninguém pode apagar esse facto. Neste particular, e como documento histórico, as memórias de Zita Seabra podem ser comparadas com as de Maria Filomena Mónica, curiosamente publicadas pela mesma editora e que é dirigida por Zita. Mónica era uma menina bem, casada com um Pinto Coelho, com conhecimentos na sociedade lisboeta, não renunciou a nada, viveu de cunhas e favores, foi bolseira da Gulbenkian, andava de Porsche nas vésperas da revolução, beneficiou de cunhas dos amigos, tinha amigos com diminutivos como Micuxa e apelidos Galvão Teles, fez carreira cómoda e confortável. Maria Filomena Mónica confessa que, no Verão de 1974, a sua preocupação era a redacção da sua tese, tendo obtido o estatuto de bolseira e sendo dispensada da docência! Nesses tempos, confessa, apesar da agitação que se vivia, a senhora estava preocupada com a sua tese! Não lhe retiro nenhum valor intelectual e académico, tem trabalhos que muito aprecio, mas há uma verdade iniludível que me escuso de anunciar porque assoma refulgentíssima quando se lêem os dois livros. Basta lê-los e contrastá-los.
Este é um dos pontos interessantíssimos das memórias de Zita. Zita abandonou os estudos e passou à clandestinidade, não andou pelo campus de Oxford, não recorreu a cunhas nem a compadrios, entrou na clandestinidade, abdicando dos confortos da vida burguesa e dos benefícios de um futuro burguês, largando mesmo as lições de ballet. Zita não é Mónica. Não digo que seja melhor nem pior, não aceito sequer que haja qualquer superioridade moral, noto é um contraste, noto um comprometimento não assumido por parte da elite burguesa com o antigo regime marcelista e isso ajuda a explicar o prolongar agónico do regime. Por outras palavras, a ascensão burguesa verificada a partir da década de 60, consentida pelos fantásticos níveis de crescimento económico, não era de molde a atrair este nível social para as dinâmicas de mudança. Tanto mais quanto o inconveniente se evitava com a cunha (como a guerra ou a prisão do filho na crise académica), o privilégio se adquiria com a cunha (como a bolsa, a viagem aos estrangeiro, o emprego num ministério) e tudo o mais vinha com o optimismo dos sixties e com os ritmos de crescimento.

Algumas notas pessoais a um caso recente da "política à portuguesa" que causou alguma divergência de pontos de vista na tripulação deste blog, plural e portanto enriquecedor. Considero o caso Zita Seabra exemplar para a percepção de um dos mitos romanescos da revolução portuguesa: a conversão dos comunistas ao ideal democrático e o seu comprometimento com a libertação das sequelas do regime autoritário finito em 25 de Abril de 1974. Duas coisas que são uma impossibilidade lógica, já que nem nunca os comunistas estiveram sintonizados com os ideais da democracia "burguesa", nem nunca quiseram expurgar o regime democrático das sequelas do regime autoritário. Bem pelo contrário como prova uma extensa historiografia contemporânea [António Barreto, António Costa Pinto, Kenneth Maxwell, José Magone, Victor Perez-Dias] quiseram tomar de assalto o aparelho corporativo do estado salazarista para se apropriarem da sua direcção como preparação de um golpe comunista. O combate do PS e a formação da UGT têm exactamente a ver com a necessidade de bloquear o avanço comunista para o aparelho de estado, tendo arregimentados, à sua volta pessoas, e forças políticas que nada tinham a ver com o PS, mas percebiam a natureza totalitária e golpista dos apaniguados de Cunhal.
Zita escreve e conta de dentro a acção dos comunistas partidários da União Soviética e cava fundo nalguns mitos associados ao ideário comunista como a luta pela liberdade e o estabelecimento de um governo representativo. E revela por dentro a natureza despersonalizante da educação comunista, a lógica de seita que prevalecia, premiando fiéis e denunciantes e exorcizando os que discordavam ou criticavam o Querido Lider.
Privei com alguns dos companheiros de route de Zita Seabra, antes e depois do 25 de Abril, na faculdade de direito de Lisboa [onde estudava quando o 25 de Abril estourou] e nunca me confundi quanto às suas convicções autoritárias, à falácia do socialismo real e à natureza torcionária da pátria do socialismo: a União Soviética. Usávamos, então, uma qualificação para os designarmos - social-fascistas - isto é, gente que apregoava o socialismo, a igualdade e a liberdade nas palavras mas que queria instituir [na prática] um regime ditatorial de aparente sentido contrário, sem liberdades fundamentais, com uma verdade única, um partido único, um estado monopolista e uma corte de apaniguados a quem eram dados privilégios indisponíveis para o comum dos mortais. A queda do Muro do Berlim veio mostrar que isso era não só realidade mas uma pequena parte da realidade. Jornais alemães davam nota - esta semana - de instruções do governo para os guardas fronteiriços da RDA de atirarem a matar a quem se atravesse a passar o muro para o lado ocidental.
O único equívoco que entronizei era que esta prática política era um "desvio" em relação aos ideais puros e nobres do marxismo-leninismo e que seria possível, partindo de uma crítica de esquerda, limpá-lo dessas deturpações e desvios. Tratava-se - vim a perceber mais tarde - de uma mistificação, uma vez que os estigmas que criticava - o autoritarismo, o golpismo, a despersonalização, o nepotismo, a intolerância - radicavam na verdadeira fonte da doutrina e não eram uma sua excrecência. Vi-o do ponto de vista do maoismo, então o irmão desavindo da família comunista, sem perceber na altura que os estigmas eram os mesmos e as ameaças a uma democratização efectiva da sociedade portuguesa da mesma natureza, embora pelo carácter microscópico dos grupos maoistas, insignificantes. Mas deu para perceber em fenómenos similares de despersonalização, de espírito de seita, da obsessão da superioridade do partido sobre a vida individual, da perseguição e humilhação dos que titubeavam perante o dogma - que se tratavam de fenómenos miméticos e muito perigosos.
Consta das minhas próximas leituras o livro Conquistadores de Alma de José Pinto de Sá, meu antigo companheiro na extrema-esquerda maoista, publicado pela Guerra e Paz. Recomendo-o vivamente aos leitores, porque dará uma outra face desta história. Uma história que se confunde hoje pela bruma do tempo, minimizando-se ameaças, esquecendo traições, e minimizando os perigos que a democracia portuguesa passou numa fase muito difícil do seu percurso. Valhou-nos o 25 de Novembro e a visão de homens sábios e prudentes.
Abandononei as fileiras comunistas em 1976, ao perceber que nada tinha a ver com aquilo. Nada me liga aos neo-conservadores mas acho importante e actuante uma posição de princípio de dismistificação do comunismo como ideologia e movimento político. Hannah Arendt mostrou em As Origens do Totalitarismo a natutreza dual do fenómeno e os gémeos políticos que foram Hitler e Estaline. Por isso é louvável - a benefício da memória colectiva - o exercício de Zita Seabra. Quanto aos que mudaram de partido talvez devessem interrogar o Dr. Mário Soares ou o Dr. Manuel Alegre sobre a respectiva "deserção" do partido comunista. Ajudava a dar alguma equidistância.