quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Justiça tabágica

Segundo relata uma agência noticiosa um tribunal da Suécia proibiu uma mulher de fumar na maior parte do jardim de sua própria casa e avisou que ela poderá ter que pagar uma multa de 2 mil coroas suecas (equivalente a cerca de R$ 580) cada vez que acender um cigarro na área proibida. A decisão foi anunciada por um tribunal da cidade de Åkarp, no sul da Suécia, que analisou os argumentos da fumante e do autor da ação, o seu vizinho, com quem trocava razões há quase um ano sobre o incidente.
Segundo um jornal sueco o vizinho não-fumante é um advogado com total aversão ao cigarro. A vizinha fumante, uma mulher de 49 anos, é uma mãe que fumava no jardim, mesmo nos dias mais rigorosos do inverno nórdico, com a preocupação de não expor os filhos ao fumo passivo.

Esta fixação das autoridades políticas e judiciais no civicamente correcto está a atingir foros de perfeita paranóia colectiva (e de outra tanta irracionalidade). Percebe-se o cerceamento do hábito de fumar nos espaços fechados, nos equipamentos sociais, mas nos espaços abertos ninguém lembra ao diabo. Mais que um problema de convivência social, é um problema de respeito pela liberdade dos outros. Depois o antibagismo como o ecologismo radical é daquelas bizantices que apenas ilude os problemas maiores que pouca gente se preocupa como a violência familiar ou a pedofilia. Mas enquanto os tribunais andarem entretidos com o que acontece nos quintais dos vizinhos deixam de atender ao mais difícil, não é?

Natascha Kampusch: Liberdade condicionada?


Faz hoje um ano que Natascha Kampusch fugiu ao raptor que a manteve sequestrada durante quase 9 anos.
Ontem, a RTP exibiu um documentário da ORF ( televisão austríaca) com a jovem, entre Viena e uma viagem a Barcelona .
Ao longo do programa foi respondendo a perguntas incómodas, recordando os tempos de cativeiro e abordando a sua nova vida em liberdade.
Achei notável a maturidade revelada por Natascha, pouco comum em jovens da sua idade (18 anos).
Por vezes deu a impressão que não se quer libertar das recordações do tempo em que esteve sequestrada ( explica, por exemplo, com admirável simplicidade, que não se desfez das roupas que usava em casa do raptor, porque ainda estavam em bom estado e não havia razão para as deitar fora...).
O documentário permite perceber que Natascha Kampusch não sente revolta e que colheu – na medida do possível- o que de bom viveu naquele período. Aceita o passado sem qualquer sentimento de vingança , como se o destino lhe tivesse reservado aquela provação na etapa inicial da sua vida e ela aceitasse o desafio com naturalidade. Quanto ao raptor, uma frase várias vezes repetida “ cada vez sinto mais pena dele...”
O “síndrome de Estocolmo” talvez justifique esta frase a o aparente conformismo. Talvez explique as razões que a levaram a ir ao funeral do raptor, a visitar a casa onde esteve sequestrada e a não querer desfazer-se dela ( "porque faz parte de um período da minha vida"). Mas não explica tudo. Há ali, obviamente, um grande trabalho do neurologista que a acompanha. Mas há também uma coisa terrível... a falta de referências afectivas que evidencia.
Seria de esperar que uma jovem raptada aos 8 anos, depois de viver quase 10 anos de sequestro em condições sórdidas, se aconchegasse aos pais no momento em que recupera a liberdade.
Como é sabido isso não aconteceu, Natascha vive sozinha num apartamento em Viena e parece manter com os pais uma relação distanciada, de equilíbrio precário, que se pode romper a qualquer momento – como ela própria reconheceu - se os pais não tiverem juízo.
Deve ser terrível constatar que os pais – cada um à sua maneira- estão a tirar dividendos do seu sofrimento. A mãe escreveu um livro onde narra a sua vida com o ex-marido que acusa de ser alcoólatra e viciado no jogo – relatando episódios que Natascha afirmou diante das câmaras preferir que não tivessem sido divulgados- e anda a correr as capitais europeias fazendo a sua promoção.
O pai – a troco de um punhado de euros – telefona aos jornalistas para tirarem fotografias cada vez que a filha o vai visitar.
É provável que Natascha sinta que a sua relação com o raptor não era muito diferente da que mantém com os próprios pais. Daí o seu conformismo.
Na medida do possível, procura levar uma vida normal para uma jovem da sua idade, não se deixando impressionar pela conta bancária de um milhão de dólares e procurando defender a sua privacidade. Não se vislumbra no seu discurso qualquer apetência consumista . Bem pelo contrário. Enquanto recupera o atraso nos estudos para poder entrar na Universidade, mantém o propósito de utilizar o dinheiro para criar uma fundação de ajuda às mulheres vítimas de violência.
Depois de ver a reportagem, uma pergunta não me sai da cabeça: como será Natascha Kampusch daqui a 10 ou 20 anos? Continuará sentir pena de Wolfgang Priklopil, ou será engolida pela voragem de uma sociedade cada vez mais mediática que sobrevoa como um abutre as suas presas?

Um mistério por desvendar

Jovens acusados de extorsão, assaltos e sequestro. Tentativas de suicídio. Agressões. Mortes violentas. De tudo isto se pode encontrar quando analisamos o percurso de jovens vedetas que ascenderam ao estrelato, através de “reality shows” como o Big Brother ou de telenovelas como Morangos com Açúcar.
Dito assim, até pode parecer que estou a insinuar que a TVI é um alfobre de delinquentes. Nada disso. A razão que me leva a abordar este assunto, prende-se com os efeitos que o mediatismo exerce em alguns jovens que saltam do anonimato para as capas de revistas cor de rosa graças a séries, novelas, ou outros programas de sucesso na televisão.
Talvez não chegue ponderar nos castings os efeitos que uma carinha laroca, um corpo apetecível - quiçá algum talento que o tempo burilará- poderá produzir no aumento das audiências e no merchandising. Talvez valesse a pena analisar, também, a capacidade que os jovens revelam para lidar com o sucesso, para aguentar a pressão de um mediatismo que os eleva, num ápice, a estrelas constantemente requisitadas para abrilhantar cortejos de Carnaval, romarias de Agosto ou festas natalícias.
Como parece provar-se pelos casos que vêm a lume – hoje foi mais um- alguns destes jovens ou não têm estofo para aguentar a pressão, ou entram numa espécie de euforia mediática que altera os seus comportamentos e os leva a cometer actos que ninguém admitiria que fossem capazes de praticar.
Creio- é apenas uma suposição- que muitos jovens que de repente se vêem a encarnar personagens de ficção são levados a fazer uma conexão perigosa entre fama e impunidade e por isso não medem a dimensão dos seus actos. Acabam por confundir a sua personagem com a sua vida real e está o caldo entornado.
Talvez fosse bom que os media falassem mais sobre isso. Talvez fosse bom que alguém estudasse o assunto... Talvez....

No thanks, Mr. Bush

Todas as semanas surgem notícias de um novo atentado no Iraque que bate mais um recorde de mortos. Ontem, lá foi mais um...
Hoje em dia os atentados no Iraque são tão banais, que já quase ninguém dá importância ao assunto. O conflito iraquiano está, aliás, fora de moda. Já ninguém questiona, por tão evidente se ter tornado a resposta, se a invasão americana não foi um erro estratégico do tamanho do Mundo. Já todos descobriram que em vez de erradicar o terrorismo, como prometia Bush, o conflito iraquiano apenas serviu para o acirrar e tornar mais imprevisível. Já poucos se dão ao trabalho de recordar que a invasão assentou em bases de mentira, videos forjados, provas irrefutáveis que se veio a descobrir serem falsas, etc. etc. etc.
O Iraque continua , porém, a ser notícia e motivo das maiores apreensões, porque tornou evidentes algumas fragilidades da máquina de guerra americana.
Não é uma boa notícia para o mundo – e muito menos causa de regozijo- saber que o exército salvador de Bush dá provas de inesperada incompetência, ao declarar como “desaparecidas” centenas de milhares de armas e outro material de guerra. Revela fraqueza e desorientação e acaba por dar razão a Saddam: os EUA meterem-se num atoleiro de que não vão sair com honra.
O pior é que – ao contrário das promessas de Bush- o Mundo hoje está mais perigoso do que antes da invasão do Iraque. Isso ninguém com a mínima clarividência pode negar. Nem a bem montada central de comunicação americana que sabe melhor que ninguém como isso se faz...

Rapidinhas 34 - Rapa, tira e põe...



Não estou particularmente preocupado com o facto de o Governo andar a tirar informações da Wikipedia . O que me preocupa é o que lá põe...

Recordações do Camelo

Obrigado ao companheiro de viagem que aqui deu a notícia de que o Camelo, em Seia, continua a ser um bom restaurante. Traz-me muitas memórias agradáveis da minha juventude. Para além da gastronomia que nos fazia “babar” duas horas antes de lá chegarmos, não esqueço alguns momentos que lá passei e a afabilidade ( e paciência...) do Jorge Camelo para aturar um grupo de jovens esfaimados depois de uma passeata na serra. Já agora...o “bacalhau à jardineira” continua a ser aquela iguaria fabulosa que era uma das marcas da casa?

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Sobre os milheirais...

... faço minhas as palavras justas de JPP (via Abrupto):

Como aconteceu com o ciclo da história do diploma de Sócrates, hoje é o dia de tentar matar a questão incómoda da destruição do campo de Silves. Estas coisas tem ciclos comunicacionais e é possível manipula-los com uma gestão adequada dos silêncios, sussurros e falas, assim como com distracções úteis. A "central de comunicação" sabe muito bem como isto se faz. Nunca se esqueçam que são profissionais e tem muitos meios à sua disposição.

Um mundo sem religiões

(...) qualquer destes livros suscita uma pergunta fatal: como tanta "evidência", "ciência" e "aprendizagem" sobre o homem, como é que há gente que ainda acredita em Deus? A religião não pode ser apenas um equívoco de primários. A resposta de Dawkins e companhia seria provavelmente a de que as pessoas optam muitas vezes por uma vida de engano e submissão, além de que o género humano não suporta nunca demasiada realidade.
Mas a resposta mais segura é de que as pessoas continuam a acreditar em Deus porque sentem uma irreprimível necessidade de acreditar em Deus. Ao pé dessa necessidade, os domínios da "prova" e da "ciência" tornam-se falíveis, não dizem nada sobre o que somos. Certamente que a fé não chega para fundar uma religião séria. Certamente que as pessoas acreditam em Deus de forma diversa e há quem não hesite em matar para atestar a sua crença. Mas esse impulso natural das pessoas para o fideísmo, no limite para a religião, é indomável. Não se ensina uma pessoa a deixar de acreditar em Deus, como se ensinam as leis da física ou o sistema solar. A religião não é uma ideologia.
É por isso que a ideia de um mundo sem religião é uma utopia absurda. Poderíamos viver num mundo sem religião? Viveríamos melhor num mundo sem religião? Não sei, mas duvido. Com mais ou menos ciência, o instinto religioso faz parte da nossa luta diária pela sobrevivência num mundo adverso e sem sentido (...)
Pedro Lomba no DN,
aqui.