quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Cenas de vida 2- Brandos costumes

A criança tinha, no máximo, 14 anos. Entrou, comprou uma garrafa de whiskey, seis garrafas de cerveja e duas garrafas de vinho. Dirigiu-se à caixa e a empregada ajudou-a a meter as garrafas em sacos de plástico, conferiu o dinheiro e, com um sorriso nos lábios, perguntou: “Vai haver festa lá em casa?”. A criança retribuiu o sorriso mas não respondeu. À porta do estabelecimento podia ler-se “ Não é permitida a venda de bebidas alcoólicas a menores de 16 anos”. Depois admiram-se que se diga que este é um país de brandos costumes!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Rios de retórica

Um olhar sobre a relação Portugal-China. O contexto: a recente visita de Sócrates à China.

Contra a obesidade do "monstro" marchar, marchar!

O ministro Alberto Costa anunciou, com o espavento mediático que os governos tanto apreciam, o emagrecimento do "monstro". Quiçá embalado pela onda de combate à obesidade que felizmente grassa por esta Europa eufórica e narcísica, o ministro da Justiça pretendeu associar-se à campanha (o que só lhe fica bem...) com um discurso alegórico.Menos feliz, terá sido a ideia de falar no "monstro", pois este desde há muito está conotado com a Administração Pública, por força de um célebre artigo de Cavaco Silva. Mas o "monstro" a que Alberto Costa se refere não é esse, é o da Justiça portuguesa...
Independentemente da fiabilidade dos números apresentados pelo ministro( as reacções foram contraditórias, como é usual num país em que os políticos tratam a causa pública com a dimensão da clubite partidária, desprezando o interesse nacional)apraz-me constatar a utilização da palavra "monstro" para aludir à Justiça portuguesa. Com efeito,já todos percebemos as monstruosidades praticadas pela dita. Fugas de informação, aplicação subjectiva ( para não dizer arbitrária) das leis,sucessivos atropelos ao segredo de justiça,encandeamento mediático, enfim, uma parafernália de "vícios" e más práticas que em muito contribuem para denegrir e desacreditar os meios forenses. Fiquei no entanto desiludido ao aperceber-me que o ministro, no seu épico discurso, ( alvo de enlevados encómios por parte de José Sócrates) se referia apenas às dimensões do monstro e não à sua qualidade. Confesso que me estou nas tintas se a justiça usa "soutien" 52 ou 38! O que pretendo é que seja isenta e proba, não utilize a comunicação social para alcançar os seus desígnios em casos particulares, nem dê guarida a pessoas como o venerando desembaragador Lima. Quem é este senhor? Nada mais nada menos do que Presidente do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol. E que fez ele? Sabendo que era o único que se opunha à suspensão de uma pena aplicada a um atleta, simplesmente adiou "sine die" a reunião em que iria ser votada a despenalização do jogador. Moral da história: quando a decisão for tomada, já o atleta cumpriu o castigo, cumprindo-se assim a vontade do sr.desembargador que, democraticamente, teria sido vencido! Poder-me-ão dizer que é um problema de disciplina desportiva, por isso não tem qualquer significado. Discordo completamente, pois ninguém me garante que "os desembargadores Lima" do nosso país não se comportem de igual modo nos Tribunais. É que a justiça portuguesa - que teimo em acreditar ser eficaz- merece ter nos seus quadros apenas pessoas que a dignifiquem e, pelos seus actos, não ponham em causa a sua probidade. Os cidadãos não podem estar sujeitos aos circunstancialismos de "cada peso sua medida", quando se trata de aplicar as medidas legislativas, nem ao livre arbítrio dos seus agentes.

A propósito do analfabetismo cultural

De voltas com a preparação das aulas do semestre dei comigo a deitar fora vários textos em lingua inglesa que tinha junto ao dossier de leituras que distribuo no início do mesmo. Googlo à procura de pequenos resumos em português que possam ser seus sucedâneos mas confronto-me com dificuldades intrasponíveis. O que se encontra é em brasileiro e de deficiente qualidade.
Recomendar livros, nem pensar. Ninguém lê nada em leituras adicionais e o que é mais grave não há qualquer curiosidade intelectual em saber por saber. Só resumos e é preciso que não sejam muito densos.
O professor é hoje em dia uma espécie de ama que se esfalfa para enfiar uma qualquer papa artificial na boca do petiz, porque este não está para comer fruta natural. Dá muito trabalho. E depois só pode ser "a tal" quantidade. Tudo o que é a mais, causa fastio. Por isso, a ignorância que os exames nacionais revelam são a demonstração do beco sem-saída a que chegámos e de um sistema educativo que capitulou perante a facilidade e a mediocridade. E perante os incompetentes que andaram a experimentar políticas educativas sem olhar ao contexto cultural e sociológico. É estrangeiro, importa-se! Hoje o professor é olhado de lado pelo sistema quando chumba alunos. Instalou-se a ideia absurda que "os meninos" têm que passar a qualquer preço.
Geração rasca? Não sei se não será pior.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Jornais e jornalistas

O Carlos Oliveira caustica em post anterior a falta de dimensão da imprensa que se publica em Portugal e lista-nos as suas leituras semanais. Fala em paroquismo o que é curial, em falta de interesse pelo que se passa no mundo, o que me parece acertado.
Há creio duas leituras cruzadas para isto: a mediocridade galopante da imprensa escrita fixada à agenda das agências e ao just-in-time dos noticiários das televisões, ou o desinteresse do público em geral com o que se passa para além dos limites da paróquia, ou dizendo de uma forma rigorosa, do quintal.
Escrevendo há dezena e meia de anos sobre política externa, pressionando por um novo momento nas relações de Portugal com a Ásia e a China, constato sempre que dou uma saltada a Portugal, o fixismo dos portugueses pelo que é instante, passadiço, efémero e o seu relativo desenteresse pelo que é internacional, europeu e cosmopolita. Basta ver as parangonas de primeira página dos diversos diários para perceber que os portugueses só se interessam pelas gafes das figuras públicas, pelos fumos de escândalos dos poderosos ou pelos maneirismos dos idiotas que se acotovelam pela primeira página das revistas cor-de-rosa. Algo mais elaborado, com maior profundidade, passa-lhes de todo ao lado, aborrece-os mortalmente.
Bem vistas as coisas se recuarmos alguma coisa no tempo a política, no sentido grego da participação nos assuntos da pólis, foi sempre pertença das elites. Na monarquia do circulo aristocrático que rodeava o rei e que se empertigava pelos seus favores. Na primeira república da burguesia urbana e ainda assim resumida a Lisboa e Porto, seduzida pela mensagem liberal e republicana da Europa culta e avançada. No Estado Novo pela corte de fiéis de Salazar expectantes em repribendas e favores. A participação das grandes massas foi sempre a rebate dos caciques, dos líderes de facção e de família, das figuras públicas que a grande massa ignorante olhava como seus condutores.
Cremos, acreditamos [provavelmente para nos convencermos a nós próprios] que em democracia as coisas seriam diferentes. O contacto com a Europa, fruto da nossa adesão transformar-nos-ia, libertar-nos-ia desse atrazo, dessa canga. Não creio que isso seja de todo verdade. Continuamos a gostar mais de demagogos que fazem o trabalho por nós, do que de líderes que nos mobilizam para os projectos nacionais de futuro. Sócrates é um bom exemplo, mas podemos ir mais atrás na nossa história recente. Ainda agora vi na televisão um conhecido banqueiro, antigo ministro da economia e militante do PSD a declarar que voltaria à política activa, um dia, se o PSD encontrasse uma nova liderança política, mas que enquanto isso não acontecer se revê no trabalho do primeiro-ministro José Sócrates. A personagem é um dos subscritores de uma agremiação que se reune, de vez em quando, para o Beato, para se queixar do país e dos políticos, mas que nada faz - repito - nada faz para mudar a política e os seus protagonistas. Falta-me dizer que a critica não tem motivação político-partidária: tenho as quotas de militante do PSD em dia, mas chateia-me, abolulatamente, a displicência destes nossos pavões.

É verdade, juntado mais alguma lenha ao fogo leiam aqui o excelente artigo do João Miguel Tavares no Diário de Notícias.

Viajar pelo Mundo, durante o fim de semana

Ao fim de semana compro, habitualmente, três ou quatro jornais estrangeiros. Não tenho títulos fixos, mas as minhas preferências vão para o "El Mundo", "El Pais","Le Monde" "Le Nouvel Observateur", "The Guardian"," Daily Telegraph" e "Clarín". Ao contrário do que acontece com os diários portugueses, que leio em pouco mais de uma hora, demoro vários dias a ler alguns deles.No final, faço sempre a mesma constatação:vivo num País que não pertence a este Planeta! Porquê? Porque as notícias que leio na imprensa estrangeira me fazem sentir "cidadão do mundo", enquanto as que leio na imprensa portuguesa me fazem sentir paroquiano. A imprensa portuguesa(com excepção de algumas revistas semanais)é centrada no noticiário nacional e nas tricas de Paróquia. O noticiário internacional é escasso, reduz-se quase exclusivamente a notícias de agência, tratando em meia dúzia de linhas o que outros títulos estrangeiros abordam em algumas páginas. Só lendo a imprensa estrangeira se pode ter uma ideia abrangente do que se vai passando no mundo, seja no médio Oriente ou na América Latina.
A imprensa portuguesa usa e abusa de artigos de opinião,muitos deles sem qualidade e outros, tão vincados partidariamente, que são pura perda de tempo.
Por tudo isto, não admira que cada vez haja mais pessoas a restringir a leitura de jornais aos gratuitos ( entre generalistas, desportivos e temáticos, são já sete os títulos em Portugal e o número tende a aumentar a muito breve trecho). Que saudades dos tempos em que havia jornais em Portugal, capazes de nos fazer levantar mais cedo, para os comprar! Hoje, a imprensa portuguesa parece mais uma cadeia de "fast food" onde os alimentos são todos iguais, apenas variando a forma de os embalar. Já não há pachorra!

Os cromos da semana

1º lugar- Nunes Liberato- O Ministro do Ambiente, na vã tentativa de demonstrar a sua existência, tem-se desdobrado em entrevistas. No entanto, até agora, o que melhor conseguiu foi confimar que não passa de uma figura de terceiro plano, elevada a protagonista de uma política ambiental cheia de contradições e sem quaisquer medidas assertivas e consequentes. Uma lástima!

2º lugar-Luís Pardal – A decisão do Presidente da Refer de readmitir, com ordenados chorudos, funcionários que despedira e a quem pagara indemnizações, é própria de um país do terceiro mundo. Daria vontade de rir, não fosse o caso de se tratar de uma empresa pública e de serem os contribuintes a pagar estas diatribes.

3º lugar - Alberto João Jardim- Pelo aproveitamento da quadra carnavalesca para apresentar a sua demissão e anunciar a sua recandidatura. Se tudo vai ficar na mesma em relação à Lei das Finanças Regionais, a única explicação para esta atitude é pretender prolongar o seu mandato mais dois anos. Ter-se-á inspirado em Hugo Chavez?

Menção honrosa- Pedro Nunes - O bastonário da Ordem dos Médicos insiste em “driblar” os resultados do referendo sobre a IVG, avisando os médicos que fizerem abortos, de que incorrerão em falta grave, punível pela Ordem. Pensará ele que a Ordem dos Médicos é que faz as leis deste País e se pode sobrepôr à vontade popular?

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Infiel

INFIDEL, Ayaan Hirsi Ali, pela Free Press, 353 pages. $26.

Viver a mensagem espiritual do Islão como mulher e liberal. Uma leitura obrigatória.