sexta-feira, 13 de abril de 2007

Homenagem a Borges

A discussão à volta da licenciatura de Sócrates, trouxe-me à memória um comentário de Jorges Luís Borges sobre Madame Bachelier, a quem acusava de ter feito publicar um catálogo sobre a obra de Pierre Menard “ cheio de imperdoáveis omissões e acrescentos”. Acontece que o referido catálogo foi publicado num jornal de tendência protestante, o que acicatou a ironia de Borges, que ao facto se refere como “uma desconsideração inflingida ( pelo jornal) aos seus deploráveis leitores – embora estes sejam poucos e calvinistas, quando não maçons e circuncisados”.
Em homenagem a Borges, só voltarei a opinar sobre as rasteiras politiquices portuguesas em caso de extrema necessidade!

Desculpem se me enganei!...

Não costumo utilizar este blog para escrever sobre questões relacionadas com jornalistas. Para isso, uso os sites da classe, como o do Clube de Jornalistas e um ou outro blog de jornalistas, como o do João Paulo Meneses, que foi meu contemporâneo em Macau.
A razão porque há dias referi o caso de jornalistas condenados por dizerem a verdade, mas terem "prejudicado a imagem" de empresas ou instituições, foi porque considerei as sentenças do STJ e do Tribunal de Braga aberrantes para a minha profissão, violadoras das mais elementares regras da liberdade de expressão, por saber que aqui escrevem outros jornalistas e por, talvez ingenuamente, ter pensado que suscitaria interesse a qualquer português, mesmo a viver fora de Portugal.
Na verdade não se trata de um “fait divers”...o assunto em Portugal tem sido amplamente debatido fora da classe jornalística e considerado preocupante por políticos e "opinion makers"de todos os quadrantes.
Enquanto jornalista, são estas questões que me preocupam - e não saber se o assessor de imprensa do Ministro A, ou o próprio PM , tentaram pressionar um jornalista.
E não me interessa, por duas razões. Primeiro, porque é uma prática seguida pelos vários Governos ( alguns dos jornalistas visados confirmaram-no); segundo, porque tenho a certeza que nenhum deles se deixa pressionar.
Assim sendo, não há discussão, mas sim um “fait divers” que pode agradar aos apreciadores de leitura de cordel e revistas “cor de rosa”, mas a mim não me interessa discutir, por achar irrelevante. Como aliás todos os que ontem se deslocaram à ERC reconheceram ( à excepção de José Manuel Fernandes, por razões sobejamente conhecidas). O que me preocupa, outrossim, é pensar que pode haver jornalistas "pressionáveis", incapazes de denunciar essas pressões.

Um Silêncio Inconveniente

Na tarde de ontem, o adeus a Odete Santos deixou para segundo plano um facto surpreendente. No período “antes da ordem dia”, todos os partidos fizeram uma referência à entrevista de Sócrates. Todos, menos o PSD!
Mesmo quando todos os partidos consideravam que o assunto da licenciatura estava encerrado, criticavam o facto de a entrevista se ter centrado nesse ponto, o que permitiu ao PM ser pouco esclarecedor quanto aos assuntos que realmente interessam ao País (desemprego, Ota, reformas e segurança social, etc, etc, etc) a bancada parlamentar do PSD manteve-se em silêncio. Sinal de que nas hostes laranjas as críticas à desastrada reacção de Marques Mendes à entrevista do PM isolam cada vez mais o líder ( o que aliás, poucas horas depois, viria a ser demonstrado por alguns deputados que se demarcaram da mensagem da véspera). Terá MM percebido que às vezes mais vale estar calado, do que “desafinar” e correr o risco de ficar a falar sozinho?
Mesmo que se siga a máxima de Goebbels uma mentira muitas vezes repetidas torna-se realidade”, o que se fica à espera não é da próxima dissertação de MM sobre a licenciatura de Sócrates, mas sim de saber qual a próxima “casca de banana” que Santana Lopes lhe irá lançar, para que ele se “espalhe”...

"Odete tem mais encanto..."

Será que “ Odete tem mais encanto na hora da despedida”?
Foi o que me ocorreu quando vi as imagens do seu adeus à AR. Foi bonito. Caceteiros, defensores do pensamento monolítico e arautos das mais amplas liberdades coincidiram, no hemiciclo, nos elogios à deputada comunista. Odete Santos, uma vez mais, mostrou a estirpe de que é feita. Não cedeu ao elogio fácil e respondeu “à letra”, não esquecendo que alguns dos que a estavam a elogiar a tinham atacado miseravelmente poucas semanas antes ( notável, a propósito, a montagem de imagens feita pela SIC Notícias). E demonstrou, nas palavras elogiosas que dirigiu a Montalvão Machado ( filho) que a sua política não é feita de rancores e azedumes , ou que – mesmo discordando deles- sabe reconhecer e elogiar os adversários quando estes são dignos
( Montalvão Machado é, juntamente com Paulo Rangel, um dos poucos exemplos de lisura e comportamento ético existentes na bancada parlamentar do PSD) e rejeitam a “chicana” política. Uma autêntica senhora, a quem a ética política muito ficará a dever.

Caminhos apertados

Na TSF on line
[...], avançou José Manuel Fernandes.
Os telefonemas procuravam, segundo o mesmo responsável, convencer os jornalistas do Público que não devia ser publicado o artigo e que não havia ali notícia.
«No meu caso concreto, não houve nenhuma alusão a um possível processo judicial» caso o jornal insistisse em divulgar a notícia, referiu José Manuel Fernandes, admitindo terem «sido feitas alusões em conversas com os jornalistas».

O último político que se meteu por estes caminhos estreitos levou com a tranca.

Impacto do "caso" galga fronteiras. Já está no El País aqui.

Quem ganhará em França?


Perpassando


Odete Santos sai do parlamento

Odete Santos abandona o Parlamento depois de dez anos de actividade política como parlamentar e como militante comunista. Traços vigorosos da sua passagem pelo Parlamento um estilo destemido, frontal, directo de expôr os seus pontos de vista e as posições do partido em que milita há 30 anos o que lhe grangeou um enorme respeito pelas bancadas da esquerda e da direita.
Uma enorme valentia em se bater pela causa das mulheres, os direitos dos marginalizados do liberalismo, os direitos dos trabalhadores. Sempre com uma ponta de ironia, com uma galhardice, por vezes brejeira, mas que a identifica com o que há de muito essencial e profundo no povo português. A capacidade de ir à luta, com sacrifício pessoal e alguma irreflectude.
Pontos negativos: a incapacidade de perceber que a tomada do poder, depois do 25 de Novembro de 1975, pelos comunistas, já não poderia ser feito a coberto das manipulações de militares amigos da "revolução", que os "direitos" conquistados com o 25 de Abril são incomportáveis se os trabalhadores não elevarem a sua produtividade, tornarem as suas empresas casos de sucesso, que o Estado não é pai de ninguém e não tem a obrigação de aliviar as dores a pacientes que não têm solução.
Outro ponto menos positivo, um sectarismo, uma cegueira quanto à bondade da ideologia que professava e professa que a levaram a não reconhecer o inevitável: a estúpidez, a irracionalidade, a brutalidade do regime dos sovietes. Quando no PCP se colocou a questão de retirar lições históricas do falhanço da perestroika e da queda do Muro de Berlim, Odete Santos esteve sempre do lado dos "puros e duros" do seu partido contra todas as tentativas de renovação vindas do seu interior. É preciso lembrá-lo porque normalmente nas despedidas temos esta mania peregrina de meter tudo no mesmo saco e esquecer as iniquidades.
Morrerá comunista, certamente. Mas isso não implica que não condenemos por irracional e totalitário o regime e tiranos os ídolos que persiste em venerar, como se de santos se tratassem [Álvaro Cunhal, Estaline, Fidel de Castro, Lenine]. Outra mulher, Hannah Arendt ensinou-nos que no século XX o totalitarismo apresentou-se com duas faces: o fascismo/nazismo e o estalinismo. Uma não se pode compreeder sem a outra. Tiveram em comum a ideia da adulação cega do chefe, o espezinhamento da diferença e da diversidade.
No fundo, Odete e os seus companheiros de bancada acreditam que aos líderes comunistas como "guardiães da fë" lhe és permitido tudo. É por isso que as nossa diferenças perante ela são intransponíveis.