segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Os portugueses – aparências, vergonhas e mitos...

Apesar das sucessivas desilusões com a construção europeia, continuo a ser um europeísta convicto. Tenho é cada vez mais dúvidas quanto à capacidade de Portugal alguma vez sair da cauda do pelotão europeu, onde se vem afundando há quase dez anos.
Falta aos portugueses empenho num projecto que identificam apenas como um saco de milhões que diariamente nos entra nos cofres, mas a que poucos sentem o cheiro. Os dinheiros de Bruxelas têm sido sobejas vezes desbaratados em projectos dispensáveis, em investimentos imprestáveis e em obras públicas faraónicas. Parcas vezes têm sido usados na construção e desenvolvimento do país, gerando mais riqueza ou permitindo aumentar a qualificação.
No entanto, aparentemente, os portugueses andam satisfeitos. Têm dinheiro para satisfazer as suas necessidades básicas e supérfluas e é quanto lhes basta para se sentirem de bem com a vida. As constantes subidas das taxas de juro têm-lhes retirado um pouco o sorriso, mas nem por isso lhes aumentam o siso. A maioria dos portugueses vive acima das suas possibilidades e consome mais do que as suas necessidades. O português vive na idiossincrasia do novo riquismo. Aparentemente está feliz com a sua “vidinha” de aparências, assente no princípio do “desenrasca”.
“Malgré tout...” de quando em vez apanha uns sopapos. Há tempos foi um putativo Ministro que decidiu viajar até à China para proclamar, prazenteiro, as vantagens competitivas de Portugal, graças aos baixos salários dos portugueses. Agora, foi a OCDE a divulgar um estudo onde se conclui que, apesar de o custo de vida ser 20% mais barato em Portugal do que na média dos países europeus, os portugueses têm salários 40% mais baixos do que a Europa a 15. ( Confesso que a sucessiva divulgação de estudos referentes a uma Europa a 15 me deixam atónito, mas isso explicarei noutro post...). A divulgação destes estudos deprime-nos. É que, embora saibamos que vivemos num mundo de faz de conta, não gostamos que os outros o saibam. Gostamos de manter as aparências de que somos ricos. Que o mundo saiba que afinal não somos, indigna-nos. Não porque estejamos dispostos a lutar para garantir salários de nível europeu e condições de vida idênticas aos nossos parceiros comunitários, mas apenas porque saber que os europeus ficam a conhecer as nossas fraquezas, nos envergonha.
Ora um país com um povo envergonhado que não se assume, não é um país com futuro. Daí o meu cepticismo quanto à possibilidade de Portugal vir, um dia, a estar na dianteira da Europa.